Patricia Lages Análise: Empoderamento na fala, insegurança nas atitudes

Análise: Empoderamento na fala, insegurança nas atitudes

Cada vez mais os discursos de empoderamento diferem das atitudes e alguns têm ido ao extremo em busca de aceitação

Soliane, de 28 anos, caiu no mar enquanto tentava fazer uma selfie

Soliane, de 28 anos, caiu no mar enquanto tentava fazer uma selfie

Reprodução/Redes Sociais

No último domingo (17), Soliane Luiza, de 28 anos, caiu no mar em uma cidade do litoral de Santa Catarina enquanto tentava fazer uma selfie. O resgate envolveu um helicóptero do corpo de bombeiros que, por conta dos ventos fortes em uma região rochosa, enfrentou dificuldades para resgatar a vítima. Depois da reanimação, Soliane foi encaminhada a um hospital, mas não resistiu a uma parada cardiorrespiratória.

Infelizmente, este não foi um caso isolado, mas sim, mais uma fatalidade que aumenta as estatísticas de um fenômeno chamado “selfitis”. O termo surgiu em meados de 2014, quando foram iniciados os primeiros estudos sobre o hábito contínuo de fotografar a si mesmo. Pesquisadores da Universidade Nottingham Trent, no Reino Unido, consideram que a selfitis é um distúrbio mental e criaram até uma escala de comportamento que classifica a gravidade da condição em três níveis:

Borderline: faz pelos menos três selfies diárias, mas não publica nas redes sociais;
Agudo: faz pelos menos três selfies e publica uma ou mais delas nas redes sociais diariamente;
Crônico: faz selfies a todo momento e posta mais de seis delas diariamente nas redes sociais.

Segundo os pesquisadores, as pessoas que sofrem com o distúrbio são escravas da atenção de terceiros, carentes de autoconfiança e buscam o tempo todo aceitação social. A condição pode apresentar sinais comuns a pessoas viciadas, incluindo alterações de humor e sintomas de abstinência quando são impedidas de se autofotografar.

A cada ano o autorregistro da vaidade tem feito mais vítimas e, segundo um estudo global da Biblioteca de Medicina dos Estados Unidos, se tornou um problema emergente no mundo. Quanto ao perfil das vítimas, cerca de 50% têm entre 20 e 29 anos, enquanto 36% são crianças e jovens de até 19 anos. Jamais imaginei que um dia teríamos estatísticas de “mortes por selfie”. Se estivesse viva, minha avó entraria em parafuso ao ouvir uma coisa dessas, mesmo tendo sido uma pessoa de inteligência ímpar.

Mas em uma sociedade onde a hipocrisia reina plena e absoluta, é claro que as atitudes andam na contramão dos discursos. Ao mesmo tempo que as pessoas dizem que são empoderadas, no melhor estilo “eu sou mais eu” e “ninguém manda em mim”, mais do que nunca buscam se autoafirmar pela opinião alheia.

Ser aceito se tornou uma necessidade, ainda que seja preciso gastar muito dinheiro para ter o que “todo mundo tem”, prejudicar a saúde se submetendo a procedimentos estéticos perigosos ou até mesmo custar a própria vida.

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