Patricia Lages Análise: Empatia no mundo virtual, julgamento no real

Análise: Empatia no mundo virtual, julgamento no real

Se o mundo fosse parecido com as frases de efeito publicadas nas redes sociais viveríamos em um paraíso, mas estamos muito longe disso

Empatia é algo muito falado atualmente, mas pouco praticado

Empatia é algo muito falado atualmente, mas pouco praticado

Polina Zimmerman/Pexels

Um casal de jovens bonitos e bem vestidos parece feliz enquanto aguarda o embarque internacional brincando com o filho pequeno no saguão do aeroporto. Ao ouvir a chamada para o voo, os três se dirigem ao corredor, mas a criança se desespera ao perceber que seu pai não os acompanhará na viagem.

O que começou com um choro compreensível foi aumentando à medida que o pai se distanciava. O menino se vira contra a mãe com gritos, urros, tapas, socos e pontapés e, claro, todos param para assistir ao ataque violento de uma criança tão pequena a uma mãe que parecia não ter a menor autoridade sobre ela.

“Foi só o pai virar as costas para o menino deitar e rolar pra cima da mãe... que tonta!”
“Quem não dá educação em casa passa vergonha na rua, filha...”
“Que horror! Nunca vi uma coisa dessas... que falta de pulso!”
“Se com esse tamanho já bate na mãe, imagina quando crescer!”
“Se fosse meu filho ia ver só uma coisa... Ah, se fosse meu filho!”
“Moça, faça essa criança parar. Não vê que está incomodando todo mundo?”

A mãe, de tão envergonhada, não havia percebido que estava toda arranhada, despenteada e com a roupa rasgada. Sua atenção estava em tentar conter a fúria repentina do filho – a qual nem ela compreendia – para que não machucasse os passageiros. Mas é claro que as pessoas deixaram bem claro que sua imagem estava pior do que imaginava, assim, ela poderia se sentir ainda pior.

Cansada, ofegante e toda machucada, ela olha para os lados e vê sua bolsa atirada longe. Peço para alguém pegar para mim? Vou lá e largo o menino? Tento levá-lo comigo? Ela simplesmente não sabia mais o que fazer. Voltar para casa não era possível, pois a viagem era inadiável. Além disso, o pai tinha um compromisso importantíssimo e ela não queria preocupá-lo ainda mais.

Uma mão pesada em seu ombro a traz de volta de seus pensamentos e ela vê um homem de uniforme: o comandante. “Senhora, tenho três opções para esse problema. Primeira: a senhora controla o seu filho e entra no avião de uma vez. Segunda: desista da viagem e aguarde a devolução da sua bagagem. Terceira: permita que nós façamos o embarque dele e possamos seguir com o voo que, aliás, já está atrasado por conta da senhora e do seu filho. O que a senhora quer?”

Ela escolhe a opção três e assiste, incrédula, a vários homens amarrando seu filho a uma maca. A criança se debate, grita, perde o ar, fica roxa, enquanto os passageiros assistem a tudo com uma satisfação inacreditável. “Agora sim, quero ver bater em mais alguém! Vai garoto, força, grita agora! Só está recebendo o que merece, quem sabe agora aprende?”

A mãe embarca em um voo de onze horas toda suja, rasgada, envergonhada e ouvindo todo tipo de insulto. Sem levantar a cabeça, ela segue calada, caminhando ao lado de dois homens que carregam a maca com seu filho amarrado, que continua gritando sem parar.

Inesperadamente uma campainha do avião toca, o menino se acalma e dorme quase que de forma instantânea. A mãe chora pelo filho, chora de vergonha, chora porque não sabe o que mais pode acontecer. Ela pede para desamarrem o menino, mas “por precaução” ele fará a viagem toda assim, atitude apoiada por todos os passageiros que, aliás, demonstraram uma criatividade enorme para sugerir formas de como educar melhor o filho dos outros.

Essa é uma história verídica, de uma amiga que se julgava a pior mãe do mundo ao dar ouvidos à forma como a maioria das pessoas a rotulava. A longa viagem da Europa para o Brasil era para uma bateria de exames a fim de diagnosticar por que seu filho não era igual às outras crianças. Foi aqui em São Paulo, em uma instituição especializada que, de graça, o menino foi diagnosticado com autismo. Somente nesse momento, depois de anos de angústias e julgamentos, que a mãe percebeu que todos estavam errados, inclusive ela mesma. Ela não era uma péssima mãe, seu filho não era um problema e as pessoas não tinham razão. Eles precisavam de respostas, não de palpites.

Empatia, caros amigos, é apenas uma palavra bonita que está na moda no mundo todo. Na vida real o que vale mesmo é o julgamento, o prazer de testemunhar os infortúnios dos outros e, sempre que possível, deixar claro o quanto as pessoas se acham superiores às demais. Se os seres humanos pudessem usar apenas os verbos que efetivamente conjugam, empatia correria o risco de ser extinta do dicionário. Que todos nós possamos falar menos e fazer mais.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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