Análise: Em meio à criação de cotas, onde ficam os melhores profissionais?

Cresce o número de empresas que ampliam vagas para mulheres, negros, transexuais e pessoas que se identificam como não binárias. Mérito não está nos critérios

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A onda do politicamente correto tem feito com que muitas empresas queiram melhorar sua imagem diante do público sem terem de fazer grandes esforços. Basta abrir vagas para a contratação de alguma “minoria” para ganhar destaque na imprensa – sem gastar um real sequer com publicidade – e já poder disfrutar do selo de empresa inclusiva, tolerante e do bem.

Os mercados financeiro e de TI têm saído na frente, oferecendo oportunidades de trabalho exclusivamente para mulheres e, em alguns casos, estabelecendo até mesmo cotas para “diminuir a desigualdade” de gênero entre seus funcionários. Parece um discurso muito bonito – que é uma característica típica do politicamente correto – mas que, no fundo, depõe contra a própria classe que supostamente pretende ajudar.

Porém, a ideia não resiste nem mesmo a uma pequena dose de realidade, afinal de contas, você entregaria todas as suas economias para um analista de investimentos contratado apenas para cumprir uma cota? Eu creio que você, valorizando os esforços que fez para juntar suas economias durante anos, iria preferir ser atendido pelo melhor analista possível, não importando o gênero, a cor da pele ou a opção sexual.

Mas, infelizmente, experiência, competência e uma carreira sólida não estão entre os requisitos mais importantes na hora da contratação quando o assunto é preencher cotas. Obviamente que, em alguns casos, como na questão das leis para PCD (Pessoas com Deficiência), as cotas são justificáveis, mais do que isso, necessárias. Mas daí a utilizar do mesmo expediente para ampliar os casos especiais tira o próprio conceito do que vem a ser especial. 

Particularmente, eu não ficaria nem um pouco satisfeita ao obter uma vaga pelo simples fato de ser mulher, muito menos quando a justificativa é a “igualdade de gênero”. Nosso mercado corporativo – como um todo – precisa de profissionalização, pois em comparação com os americanos, por exemplo, um brasileiro produz quatro vezes menos e ainda custa mais caro.

Se as empresas começarem a focar em atender a agendas que nada têm a ver com a melhoria efetiva de seus produtos e serviços, correremos o sério risco de termos corporações com discursos muito bonitos, mas que continuarão deixando a desejar em termos de qualidade. Em vez de buscar o crescimento de todos e retribuir a cada um segundo suas próprias capacidades e esforços, o discurso politicamente correto trabalha para criar divisões, fortalecer a polarização e fomentar a vitimização. Mas, como não poderia deixar de ser, tudo muito bem travestido de “ações necessárias para o bem comum”. O futuro, em breve, nos dirá.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.