Análise: Em casa onde falta pão, todos brigam, ninguém tem razão 

Brasil se assemelha a uma mansão com uma família que poderia prosperar, mas cada um luta pelo melhor cômodo ainda que destrua o do outro

O pão: poucos têm demais e demais têm pouco

O pão: poucos têm demais e demais têm pouco

Pixabay

Cada um de nós é um indivíduo cuja essência da palavra indica um organismo único, distinguível dos demais. Mas há um significado muito mais profundo que nos classifica como indivisos, ou seja, que não apresentam qualquer divisão. E é assim que deveríamos ser, principalmente em momentos como esse que estamos passando.

Mas a realidade é outra, pois na prática não há respeito com opiniões divergentes nem tolerância com quem vê o mundo por ângulos diferentes ou coexistência de crenças. O interesse em comum parece ser apenas o de cada um garantir o seu, ainda que seja às custas do que é do outro.

É uma casa onde falta não só o pão, mas quase tudo. Onde pouca gente tem demais e gente demais tem pouco. E a escassez, em vez de unir as pessoas em prol do bem de todos, surte o efeito oposto e que acabou por incutir na nossa cultura os piores conceitos como o jeitinho brasileiro, a “lei de Gérson” e a regra da “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Fora isso, a hipocrisia corre solta para cumprir o seu papel brilhantemente: dissimular os verdadeiros sentimentos e intenções. As pessoas já entenderam o que podem ou não dizer e, com isso, cada vez mais as verdadeiras intenções são encobertas em nome de uma falsa tolerância ou de uma falsa preocupação com o outro.

Porém, toda falsidade tem suas limitações e, para quem está atento, é possível enxergar a verdade. É possível ver que, mesmo sabendo que há pessoas sem ter o que comer em casa, dependendo do auxílio emergencial do governo, milhares (provavelmente milhões) de brasileiros que não têm direito cadastraram-se para “tentar a sorte”.

Entupiram o sistema atrasando as análises e o pagamento de quem precisa e, segundo diversos relatos – publicados das redes sociais de muita gente – esses aproveitadores que conseguiram receber, estão gastando os 600 reais em cerveja e churrasco. Inclusive rindo de quem não recebeu, dizendo coisas do tipo “o mundo é dos espertos”. O sistema é falho, porém, mais falho ainda é o caráter desses que tiraram o pão da mesa de tantos outros.

Enquanto isso, quem sai de casa gastando recursos próprios para ajudar a quem precisa é taxado de demagogo, aproveitador, além de uma nova acusação: irresponsável que fura a quarentena e põe em risco a vida dos outros. É uma inversão clara de valores onde presos são soltos e cidadãos são presos. Um tempo onde muitas pessoas que não têm o que gostariam, preferem esforçar-se para que o outro perca em vez de seguir seu exemplo. São poucos tentando manter a casa de pé, enquanto outros, que parecem esquecer que moram sob o mesmo teto, trabalham o tempo todo para vê-la ruir.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog www.bolsablindada.com.br. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.