Patricia Lages Análise: Educação brasileira na UTI, mas isso a gente vê depois

Análise: Educação brasileira na UTI, mas isso a gente vê depois

Apenas 0,001% dos alunos tiveram nota mil em redação no Enem 2020, uma queda de 47% sobre um resultado que já era ruim

Brasil tem situação vergonhosa na Educação

Brasil tem situação vergonhosa na Educação

Marcello Casal Jr/Agência Brasil

De um total de 2.723.583 de textos avaliados no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), apenas 28 estudantes receberam nota máxima, sendo mais de 70% mulheres, enquanto 87.567 zeraram a prova de redação. Em 2019 o número de notas máximas também não foi motivo de orgulho, pois apenas 53 estudantes alcançaram o feito.

O grande recorde da edição 2020 do exame ficou por conta da abstenção: 51,6% dos mais de 5,5 milhões de inscritos não compareceram. E quem optou pelo Enem Digital demonstrou menos interesse ainda: 68,5% não fizeram a prova.

Mas a situação vergonhosa da educação no Brasil não se limita apenas aos resultados ou ao desinteresse em relação a um dos principais meios de avaliação do país. Segundo um levantamento de 2019 feito pelo IBGE, 1,22 milhão de crianças e adolescentes de 7 a 14 anos de idade não sabem ler ou escrever e o problema não é o acesso a instituições de ensino, pois 93,8% deles – mais de 1,15 milhão – estão matriculados em escolas.

O Brasil continua sendo o país onde quase todos os problemas já foram resolvidos, mas a questão é que isso acontece apenas no papel. Na teoria, o país praticamente já alcançou a universalização do acesso aos estudos com 99,3% de taxa de escolarização. Porém, em um país com mais de 520 anos já deveríamos ter superado a marca dos 100% alguns séculos atrás. Detesto dizer isso, mas em relação à educação brasileira não há o que comemorar.

Nosso sistema de ensino é um dos mais ineficientes do mundo e o que comprova a afirmação são os resultados obtidos pelos alunos, além do despreparo com que saem das universidades. A doutrinação e a demagogia política tomaram o lugar do ensino e o conhecimento foi substituído pela militância. Em vez da construção do saber, estudantes se formam todos os anos com nota máxima em vitimização, afinal, para o patrono da educação brasileira tudo é opressão, inclusive a família.

Em sua principal obra, “Pedagogia do oprimido”, Paulo Freire afirma: “As relações pais-filhos, nos lares, refletem, de modo geral, as condições objetivo-culturais da totalidade de que participam. E, se estas são condições autoritárias, rígidas, dominadoras, penetram nos lares que incrementam o clima da opressão.” Com uma certa engenhosidade linguística, a autoridade, rigidez e domínio que os pais deveriam exercer sobre seus filhos – o que antes significava educa-los – acabou se transformando em opressão.

Deixem as crianças errarem à vontade, pois corrigi-las significa oprimi-las. E qual é o problema de escreverem casa com z ou professor com um só s? E daí se não sabem fazer contas? Para isso existe calculadora, ora bolas! Deixe-as passarem para o próximo ano letivo ainda que não tenham conseguido acompanhar o conteúdo do ano anterior. Provas ou avaliações? Nem pensar! Para quê? Elas não precisam provar nada para ninguém! E tem mais: deixe-as “construírem” seu próprio conhecimento livremente. Limite-se a responder o que perguntam, pois se elas não demonstram interesse é porque não precisam aprender.

As crianças já estão muito ocupadas decidindo a qual dos mais de setenta “gêneros” pertencem, então, não as atrapalhe! Você não tem como compreender isso, pois na sua época só havia dois gêneros e, mesmo assim, você nem podia escolher... Mas agora tudo mudou e a opressão da binariedade acabou!

Ao contrário disso, diga que elas merecem tudo apenas pelo fato de terem nascido. Que são especiais e podem fazer o que quiserem, na hora que quiserem. Não esqueça de informa-las que alguém chamado Estado tem a obrigação de dar a elas tudo o que necessitam: emprego, moradia, saúde, aposentadoria e que, para isso, não é preciso fazer muita coisa. Afinal de contas, o dinheiro para financiar isso tudo vem de um lugar mágico chamado Casa da Moeda, onde basta apertar um botão e milhares de notas surgem para suprir todas as necessidades.

Essa é uma pequena parte do plano de emburrecer as futuras gerações, tornando-as massa de manobra de quem não está ligando a mínima para o futuro deste país. A educação brasileira, sem dúvida alguma está na UTI, mas como no momento temos apenas um único problema, isso aí a gente vê depois.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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