Patricia Lages Análise: É saudável adaptar-se a uma sociedade doente?

Análise: É saudável adaptar-se a uma sociedade doente?

De 'haters' de internet a ataques reais de fúria, sinais claros e cada vez mais comuns de que algo não vai bem com os seres humanos

É preciso muita coragem, equilíbrio e perseverança para que possamos resistir

É preciso muita coragem, equilíbrio e perseverança para que possamos resistir

PatoLenin/Pixabay

“Não é saudável adaptar-se a uma sociedade profundamente doente.” A frase é do filósofo indiano Jiddu Krishnamurti, falecido em 1986, aos 90 anos de idade. Entre os diversos pensamentos que vêm à minha mente por conta dessa afirmação, surge um questionamento: se Krishnamurti considerava a sociedade de 40 anos atrás doente, como ele definiria o quadro de saúde atual?

Como explicar a normalização de termos como “hater” (odiador) e “stalker” (perseguidor) e acreditar que é preciso se acostumar aos crescentes ataques de fúria desencadeados por tudo e por nada. Pior que isso é ver como muitos têm justificado esse tipo de comportamento, classificando-o até mesmo de “merecido”.

O médico mereceu ser agredido por não prestar atendimento a um paciente. Não importa se ele estava acordado havia 48 horas, se não conseguiu parar para se alimentar, nem se está totalmente exausto por ter atendido dezenas de outros pacientes em condições precárias.

Aquele comércio mereceu ter sido vandalizado. Não importa se os donos investiram anos de trabalho, pagando seus impostos e dando duro para honrar a folha de pagamento de seus funcionários.

A artista merece ser “cancelada”; afinal de contas, ela não quis ser famosa? Agora aguente! Ninguém se importa se ela vai perder contratos, se entrará em depressão nem se toda a família sofrerá por causa de um simples mal-entendido.

Acredito que haja uma série de explicações para o que tem acontecido em nossos dias, mas não podemos achar normal essa quantidade de raiva incontida, esse excesso de desprezo pelo próximo e toda falta de apreço pela vida enquanto se fala de empatia, tolerância e amor.

Não é saudável adaptar-se a essa situação, assim como não é humano pensar que impor sofrimento a alguém é justificável.

Chegamos a um ponto em que fazer o bem ao próximo é um ato de resistência. Sendo assim, é preciso muita coragem, equilíbrio e perseverança para que possamos resistir sem permitir que essa doença generalizada venha nos acometer.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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