Análise: É mais fácil enganar do que convencer do engano

Segundo a CVM, o número de denúncias de golpes financeiros tem crescido a cada ano e, mesmo com toda informação disponível, muita gente ainda cai

Internet é oceano de possibilidades para golpistas

Internet é oceano de possibilidades para golpistas

Pixabay

“Eu vou receber o meu dinheiro sim, você vai ver... E quando eu receber você vai se arrepender do que está falando, não quero ouvir mais nada. Você pensa que sou uma burra só porque sou velha? Então, não precisa mais vir aqui!” Essa é a fala de uma aposentada de 70 anos de idade, vítima de um golpe que ceifou todo o dinheiro acumulado durante uma vida modesta e regrada: R$ 10 mil.

A neta, que há mais de cinco anos tenta convencer a avó de que o dinheiro foi perdido, acabou se tornando a vilã da história, enquanto o golpista conta com a simpatia da avó que, além de acreditar que receberá o rendimento prometido (por mais que o prazo tenha sido estendido inúmeras vezes), ainda pensa em fazer um empréstimo consignado para incrementar seu “investimento”. Realmente é muito mais fácil enganar uma pessoa do que convencê-la de que foi enganada...

Analisando o número de processos abertos pela área de orientação aos investidores da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o crescimento do mercado marginal é notório. Nos anos de 2014 e 2015 houve uma média de 29 registros de denúncias sobre golpes financeiros. Em 2016, o número mais que dobrou, chegando a 88 processos. Já em 2017 foram 99 casos e, em 2018, entramos na casa dos três dígitos com 124 denúncias. Para piorar o quadro, no ano passado tivemos um recorde: 371 casos e, até 29 de julho deste ano, foram registradas 213 denúncias, dando sinais de que poderemos ter um novo recorde.

Dentre as diversas modalidades de golpes há desde os mais criativos, onde quem oferece a “grande oportunidade” de obter altos ganhos propõe cálculos que parecem fazer todo sentido (na cabeça dos desavisados) até a repaginação da velha pirâmide financeira que, por incrível que pareça, ainda funciona.

Como grande aliada dos golpistas, a internet tem sido um oceano de possibilidades, onde se lança todo tipo de isca para atrair a atenção dos mais diversos tipos de peixes. É nela que as pessoas se sentem à vontade para expor suas vidas por meio de pensamentos, frases e fotos, deixando transparecer, além de seu estilo de vida, sua condição psicológica e financeira. Em menos de quinze minutos de navegação é possível detectar alvos fáceis e que se encaixam perfeitamente em uma das muitas propostas do mercado financeiro marginal.

Se o alvo são mulheres, as propostas de ganhos fáceis e rápidos são apresentadas como “ajuda mútua”, “ação entre amigas”, “roleta da solidariedade”, “mandala da prosperidade”. Se são os mais ambiciosos, os golpistas postam fotos de suas conquistas como se fossem fruto do “investimento” que oferecem, vendendo a ideia de que todos que participarem igualmente terão mansões, carros esportivos, roupas de grife e, de quebra, viajarão pelo mundo.

E, claro, para os aposentados que têm renda garantida, ainda que insuficiente para o próprio sustento, basta oferecer ouvidos atentos, se colocar como o neto que todo avô gostaria de ter e pronto: está formado o vínculo necessário para que o golpe pareça a solução de todos os problemas.

A questão é que esses crimes roubam muito mais do que dinheiro de suas vítimas. Os traumas psicológicos que esse tipo de armadilha traz pode deixar sequelas profundas, além de dividir famílias, encerrar amizades e minar a autoconfiança de quem se deixou levar por promessas que chegam, muitas vezes, a ser absurdas.

Vivemos em uma sociedade adoecida, depressiva, carente de confiança, que enaltece as emoções e procura, a todo custo, fugir da realidade. A impressão que se tem é que a cada dia aumenta o número de pessoas que evita raciocinar, tentando construir para si um mundo de fantasia.

É preciso viver com os olhos bem abertos, ser consciente das próprias responsabilidades e parar de acreditar que “um dia” o grande prêmio lhe será entregue, como que por encanto. Se realmente queremos construir algo, temos de ter a consciência de que é necessário colocar um tijolo por dia, ao longo de muitos dias. A realidade requer o sacrifício de se construir sobre uma base sólida, o que leva tempo, mas oferece estabilidade. Enquanto as fantasias permitem que se construa rapidamente sobre a areia, porém, diante de qualquer intempérie, invariavelmente o castelo vai ruir. Cada um é livre para fazer suas próprias escolhas, mas ninguém está livre das consequências de cada escolha.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.