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Análise: Dividir para conquistar

Essa é a estratégia que vem sendo implementada no Brasil: dividir as pessoas em guetos inimigos que guerreiem entre si deixando livres os verdadeiros inimigos da nação

Agora, somos levados a escolher sempre um lado

Agora, somos levados a escolher sempre um lado

Reprodução/Freepik

O Brasil costumava ser o país que recebia indistintamente a todos, sempre de braços abertos. A nação do sorriso fácil, da simpatia, do calor humano. Das pessoas que, mesmo sem condições, estendiam a mão aos mais necessitados sem questionamentos e sem partidarismo. Uma terra generosa que gerava filhos generosos.

Porém, de uns anos para cá, de uma forma assustadoramente veloz, nossa identidade vem sendo questionada e o que antes era líquido e certo, agora, é fluido e duvidoso. Já não nos basta apenas a nacionalidade brasileira, agora temos de nos encaixar em um sem-fim de classificações que mais nos divide do que une.

Agora, somos levados a todo momento a “escolher um lado”, pois já não somos uma única nação. Nosso país tem sido desmantelado e dividido em grupos cada vez mais específicos. Não somos mais brasileiros e ponto. Somos brancos e negros, ricos e pobres, empresários e funcionários, nortistas e sulistas, gays e héteros, homens e mulheres, nós e eles. Mas para além da divisão está a doutrinação da inimizade. Cada grupo precisa levantar muros para se defender de seu opositor e, dessa forma, temos um país dividido, cheio de ódio e mergulhado no caos.

Trata-se da construção de muros muito piores do que os feitos com tijolos, cimento e arame farpado. São muros implantados na mente de cada um, dividindo as pessoas de uma forma muito mais profunda, pois vem de dentro para fora. Uma verdadeira doutrinação capaz de cauterizar mentes e incutir sentimentos de vingança e de ódio em relação a pessoas que, até um tempo atrás, eram apenas concidadãos, iguais, vizinhos, amigos. Estamos nos esquecendo de que fazemos parte de uma única nação, de uma mesma sociedade e que, se estivéssemos unidos, seríamos muito mais fortes.

Na última semana presenciamos um novo ato divisional, onde políticos sem escrúpulos – mais uma vez – driblam e se aproveitam de um sistema frágil para nos fazer de tolos. Com a nova regulamentação de divisão de verbas que privilegia a campanha eleitoral de negros, mais de 25 mil candidatos alteraram sua raça. Destes, 40% dos brancos passaram a se autodeclarar pardos ou pretos que, segundo a classificação do IBGE, são negros.

O capítulo 8 do livro “O príncipe”, de Maquiavel, descreve que há duas maneiras de se chegar à posição de príncipe: “por via criminosa e nefanda” ou “com o favor de seus concidadãos”. Cabe a cada um de nós, como eleitores, julgar se um político que é capaz de mudar a cor de sua pele em uma autodeclaração é um criminoso nefando ou é alguém que merece nosso favor em forma de voto. Nós temos o poder e a responsabilidade de escolher nossos príncipes e, se o fizermos mal, teremos de arcar com as consequências. Não importa a qual desses grupos você acredita que pertença, se o barco do seu município afundar, todos estarão propensos a morrer afogados.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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