Patricia Lages Análise: Diversidade e tolerância ou pura hipocrisia?

Análise: Diversidade e tolerância ou pura hipocrisia?

Quem diz ser a favor da diversidade e da tolerância, mas não aceita pensamentos diferentes e não tolera opiniões contrárias não passa de mais um hipócrita

Mundo polarizado mostra a hipocrisia humana

Mundo polarizado mostra a hipocrisia humana

Pixabay

Esses dias perguntaram se é correto bloquear pessoas nas redes sociais quando estas divergem das nossas opiniões. As redes que mais uso são Instagram e YouTube e, ao longo dos anos que as mantenho, já recorri diversas vezes ao bloqueio de alguns perfis. Não porque as pessoas divergiram das minhas opiniões, mas sim, quando usaram o meu espaço para divulgar fake news, para caçar pessoas e aplicar golpes (em se tratando de finanças isso é muito comum) ou quando, na falta de argumentos, ofendem e usam palavras de baixo calão, as quais não tenho obrigação alguma de aturar.

O desenvolvimento do nosso conteúdo é feito com seriedade e responsabilidade, portanto, quem estiver a fim de bagunçar, desinformar ou impor suas pautas em um espaço que não é seu, será bloqueado e fim. Há quem diga que isso atrasa o crescimento das minhas redes, mas discordo. Creio que o efeito é exatamente o oposto, afinal, para que manter um número enorme de pessoas que não têm nada a ver com a nossa proposta? Atraso de vida! Mas aqueles que divergem com argumentos sólidos, pontos de vista interessantes e educação, só enriquecem o debate, ainda que eu mantenha uma opinião contrária.

Certa vez, uma leitora de Brasília, muito assídua do meu blog, deixou um comentário dizendo que eu estava equivocada sobre um de meus artigos. Ela expôs seu ponto de vista e forneceu dados de pesquisas aos quais eu não tinha acesso. Por trabalhar em um ministério, ela possuía informações que embasavam sua fala e que, em vários pontos, mostravam que eu não estava enxergando todos os lados daquele assunto.

Ao verem uma opinião contrária, diversas leitoras começaram a me defender e, algumas delas, de uma forma não muito polida, digamos assim. Minha reação foi de pedir que ela me enviasse, se possível, mais informações para que eu pudesse estudar o tema mais a fundo e voltar a escrever a respeito. Isso já deixou claro que ela era bem-vinda e que a diversidade de opiniões é algo saudável.

Poucas semanas depois, recebi a notícia de que teria de ir a Brasília e, sem pestanejar, entrei em contato com a leitora para ver a possibilidade de nos encontrarmos para um café. Prontamente ela respondeu dizendo que faria melhor: reacomodaria sua agenda para almoçarmos juntas e termos mais tempo para conversar.

Foi um almoço extremamente prazeroso, onde discutimos assuntos diversos, descobrimos que divergíamos em várias outras coisas, mas que também tínhamos muito em comum. E o principal acontecimento desse encontro foi a prática da aceitação da diversidade de pensamentos e da tolerância de opiniões contrárias.

Passados alguns meses, ela veio a São Paulo para um evento e, novamente, nos encontramos, mas desta vez para um jantar com a equipe de trabalho do ministério (com o qual eu divergia em várias coisas). Mesmo assim, nos divertimos, rimos das diferenças e descobrimos afinidades. Até hoje tenho um carinho enorme por esta leitora que virou amiga e com quem descobri que aquilo que nos une é muito maior do que as opiniões que nos separam.

O triste da história é constatar que no mundo polarizado de hoje esses encontros estão cada vez mais impossíveis de acontecer. Quanto mais se fala em diversidade e tolerância, mais radicais e intolerantes as pessoas se apresentam. Estamos em uma época fingida, falsídia, dissimulada. Estamos mesmo na era da hipocrisia.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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