Patricia Lages Análise: Ditadura da felicidade, depressão e ansiedade

Análise: Ditadura da felicidade, depressão e ansiedade

Brasileiros querem ser felizes o tempo todo, mas temos sido o segundo maior país em depressão e o primeiro em ansiedade

Brasil é o segundo colocado em depressão

Brasil é o segundo colocado em depressão

Pixabay

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), de 2008 a 2018, foi observado um aumento de 18,4% nos casos de depressão em todo o mundo. O Brasil é o segundo colocado em casos de depressão, com 5,8% da população, perdendo apenas para os Estados Unidos por uma pequena diferença.

Além disso, os brasileiros são os mais ansiosos do mundo, com um índice de 9,3%, o que representa quase 20 milhões de pessoas. Detalhe: esses números se referem a um período anterior à pandemia.

Coincidência ou não, de uns anos para cá, a pressão por ser feliz o tempo todo tem se intensificado. Todos os dias é preciso que aconteça algo muito bom para “produzir conteúdo” para as redes sociais com o pseudo objetivo de inspirar os seguidores. E quando alguém deixa de fazer suas postagens felizes por alguns dias – ou, dependendo da pessoa, por algumas horas – já surge a preocupação com seu bem estar.

Ouvi uma frase esta semana que, em um primeiro momento, pareceu bastante estranha, mas que faz todo sentido. Uma brasileira que foi morar na Holanda revelou que o que mais gosta naquele país é a falta dessa pressão: “Aqui eu posso ser triste”.

No Brasil, a cobrança por ser feliz permanentemente é tão grande que o simples fato de não estarmos rindo à toa significa que há algo de errado conosco. Reconhecer que não é tão feliz como todo mundo tem levado muita gente a um estado depressivo e a desenvolver ansiedade. Em algum momento, não estar feliz o tempo todo virou doença.

A tristeza, porém, tem um papel de suma importância para o desenvolvimento humano. Diversos estudos apontam que a tristeza promove as interações sociais, pois, além de os momentos tristes nos levarem a uma aproximação com familiares e amigos, também nos fazem ter empatia por outras pessoas que estejam passando por momentos de tristeza. O choro gerado pela tristeza também é benéfico, pois traz tranquilidade e relaxamento e pode funcionar como um botão de reinício para uma mente cansada e conturbada.

Além disso, a tristeza nos faz avançar, pois expõe uma situação ruim que precisa ser mudada, nos levando a agir para superar os momentos difíceis. Da mesma forma, é a tristeza que nos leva ao autoconhecimento, pois nos conduz a momentos de reflexão e de arrependimento de nossos próprios erros. Sem isso, a vida se resume a comparações superficiais que enaltecem as futilidades e ainda promovem a depressão e a ansiedade. Ninguém é, e nem deve ser, feliz o tempo todo. E isso é ótimo!

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

Últimas

    http://meuestilo.r7.com/patricia-lages