Patricia Lages Análise: “detox” de informações em prol da saúde mental

Análise: “detox” de informações em prol da saúde mental

Desde o início da pandemia têm sido observados aumentos significativos nos índices de transtornos mentais. O que fazer?

Saúde mental é uma questão preocupante durante a pandemia

Saúde mental é uma questão preocupante durante a pandemia

Pexels/Andrew Neel

Cansaço fora do comum, sensação de falta de ar e asfixia, náuseas, tremores, tonturas, dores musculares, coração acelerado. Esta não é a descrição dos sintomas de uma pessoa infectada pelo coronavírus, mas sim, de uma crise de ansiedade.

Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 2020, dá conta de que grande parte dos brasileiros está sentindo na pele os efeitos da ansiedade e da depressão em razão da pandemia. O estudo ouviu 1.996 pessoas maiores de 18 anos e comparou os índices nacionais com os de outros países. Enquanto a média mundial indica um aumento de 30% nos casos de transtornos mentais, no Brasil os níveis são alarmantes: elevação de 80% da ansiedade e 68% da depressão.

Em entrevista à Agência Brasil, a coordenadora da pesquisa, Adriane Rosa declarou que questões socioeconômicas e culturais, como renda e escolaridade, que são mais baixas no Brasil, agravam os sintomas relacionados à saúde mental. “A gente sabe que, se os níveis de escolaridade e renda são bons, funcionam como proteção. Mas, se são ruins, fazem o efeito contrário”, afirmou a professora.

Outro estudo, realizado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e publicado pela revista médica The Lancet, reafirma o estado preocupante da saúde mental dos brasileiros por conta da pandemia. O levantamento aponta que os casos de depressão aumentaram 90% e os níveis de estresse agudo mais que dobraram em 2020.

Naquela altura, o mundo todo tentava se adaptar ao que começou a ser chamado de “novo normal”, com diversas restrições, trabalho remoto, distanciamento de amigos e familiares, filhos sem poder ir à escola. A vida foi colocada em suspenso por tempo indeterminado e havia muito mais perguntas do que respostas. Todas as esperanças estavam em que as respostas chegariam nos meses seguintes e tudo voltaria a ser como antes.

Porém, passado um ano, é como se tivéssemos voltado à estaca zero: novos lockdowns, restrições ainda mais severas e até toque de recolher, mesmo sem nenhuma comprovação científica de eficácia e apesar do posicionamento contrário da Organização Mundial de Saúde (OMS) de fechamento em países pobres como o nosso.

Doze meses após o evento que chacoalhou nossas estruturas, a classe política brasileira não tem o menor pudor em aparecer em público apenas para acusar seus desafetos pelas vidas perdidas em seus estados, sob sua responsabilidade. Vidas perdidas pelas quais eles mesmos pouco fizeram – e sabem disso –, mas que agora tentam colocar na conta de outros, sem nem ao menos dar explicações do que fizeram com bilhões de reais recebidos e o porquê de não termos hospitais de campanha, nem leitos suficientes e nem ao menos oxigênio. O que importa para aqueles que deveriam trabalhar em prol do povo é garantir capital político para si mesmos na corrida pelas próximas eleições.

O coronavírus – que não pode ser chamado de vírus chinês para não estigmatizar seu povo – agora ganha uma mutação abertamente batizada de “variante brasileira”, tirando os holofotes da tão admirada China e colocando-os sobre o tão desorganizado Brasil. O que ninguém sabe explicar é como a “variante brasileira” acometeu uma pessoa de 90 anos, em Nova York, que não possui registro de viagem recente e nem sequer teve contato com alguém que esteve no Brasil. Agora, os “irresponsáveis” causadores na “nova onda” (que não se sabe se é a terceira, quarta ou quinta) somos nós. Da noite para o dia nos tornamos o epicentro de uma doença surgida literalmente do outro lado do mundo...

Diante disso tudo, não é à toa que a saúde mental do brasileiro esteja pior do que nunca. Uma das formas de se resguardar dessa triste realidade é blindar a mente de notícias negativas, contagens diárias de mortos e “novidades” que surgem a cada dia para tornar o quadro ainda pior. Sem mencionar as fake news, as brigas políticas, os exageros da imprensa funerária (que lucra alto com as desgraças) e a irracionalidade das discussões nas redes sociais. Não se trata de alienar-se da realidade, mas sim, de uma medida de autoproteção, uma vez que nada podemos fazer para mudar o que acontece do lado de fora.

É preciso nos mantermos sãos, garantindo nossa saúde mental para que, sempre que necessário, estejamos bem para podermos oferecer ajuda àqueles que precisarem. É preciso cuidar do corpo, tomar todos os cuidados que bem sabemos quais são, mas sem nos esquecermos de que quem comanda o corpo é a mente. Se ela não estiver bem, todo o resto irá pelo mesmo caminho.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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