Patricia Lages Análise: Defender 'piramideiro' é pior que crer nele?

Análise: Defender 'piramideiro' é pior que crer nele?

Preso pela PF, dono da GAS é acusado de operar um dos maiores esquemas de pirâmide do Brasil, mas clientes o defendem

Depositphotos.com / Megastorm

Mesmo criado há mais de cem anos, o Esquema Ponzi, conhecido como pirâmide financeira, ainda faz milhões de vítimas em todo o mundo. No Brasil, o golpe muda de nome, mas é sempre muito bem aceito, pois une espertalhões com discursos convincentes a pessoas sem conhecimento financeiro que acham possível ganhar dinheiro fácil e rápido.

O fundamento do Esquema Ponzi é sempre o mesmo: oferecer altos retornos financeiros em um curto período de tempo. O que varia são apenas os supostos ativos nos quais o dinheiro seria investido, porém, o que faz a pirâmide se manter é a transferência de dinheiro de clientes novos para os antigos. Quando não há mais base suficiente, o esquema cai como um castelo de cartas fazendo com que todos percam, menos quem está no topo.

Para a economista Renata Barreto, pior que acreditar que existe dinheiro fácil é “defender o piramideiro”. Em seu perfil no Instagram – com mais de 530 mil seguidores – ela afirma que a GAS Consultoria deve ser a maior pirâmide do país e que pessoas venderam carros, imóveis e fizeram empréstimos para entrar no esquema, mas, mesmo diante das evidências, as vítimas entram em uma espécie de negação e acabam por defender o autor do golpe.

Empresa de Glaidson é investigada pelo crime de pirâmide financeira

Empresa de Glaidson é investigada pelo crime de pirâmide financeira

Reprodução

“Na semana passada houve uma carreata em apoio a Glaidson, dizendo que ele só foi preso por ser um negro que tirou as pessoas de Cabo Frio da pobreza. Que ele tirou dinheiro dos bancos que, com inveja, fizeram pressão para que ele fosse preso. As pessoas acreditam em absolutamente qualquer coisa para não reconhecerem que foram enganadas”, declara Barreto. A economista também afirma ter recebido mensagens de pessoas dizendo “que entraram no esquema sabendo se tratar de pirâmide, mas que queriam rapidamente ganhar dinheiro e tirar antes de estourar”.

Além da credulidade das pessoas, a maior dificuldade no Brasil é que não há uma lei que especifique o esquema com precisão no nosso Código Penal. Segundo um levantamento da Suno, pelo menos cinco casos de pirâmides financeiras se tornaram icônicos, pois, apesar de terem sido descobertos, até hoje há pessoas que os defendem. E não quaisquer pessoas, mas sim, as próprias vítimas. São eles:

Fazendas Reunidas Boi Gordo
O esquema se manteve em alta nos anos 1980 e 1990, quando mais de 30 mil pessoas acreditaram se tratar de um investimento em gado no interior de Goiás. Ao todo, as pessoas perderam quase R$ 4 bilhões em valores da época.

Avestruz Master
Nesta modalidade, o suposto ativo era a criação de avestruzes. Apesar de ter 38 mil aves, a empresa declarava ter mais de 600 mil. O esquema quebrou em 2005 e os sócios fugiram para o Paraguai deixando milhares de brasileiros no prejuízo.

TelexFREE
Os ativos neste esquema eram ligações telefônicas pela internet sob a promessa de um crescimento bombástico do setor. A ousadia chegou ao ponto de a empresa ser patrocinadora do Botafogo, time de futebol carioca, em 2014. Porém, no mesmo ano, o esquema explodiu e o prejuízo das vítimas chegou aos R$ 2 bilhões.

Atlas Quantum
Uma das primeiras a justificar o esquema por meio de investimentos em criptomoedas. O crescimento da empresa foi extremamente rápido e os valores captados foram suficientes para veicular propagandas na Rede Globo. Entre 2018 e 2019 o esquema desmoronou.

Unick Forex
Apesar de ter quebrado em 2019 após uma operação da Polícia Federal, ainda há quem diga que não se tratava de uma pirâmide. A empresa dizia atuar no mercado financeiro internacional, movimentando bilhões de reais com escritório em Belize, paraíso fiscal na América Central. O esquema também chegou rapidamente à casa dos bilhões de reais.

Segundo a polícia, a empresa G.A.S. Consultoria e Tecnologia é o mais novo caso de pirâmide financeira no Brasil cujos supostos ativos seriam Bitcoins. De acordo com o Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a empresa de propriedade do ex garçom Glaidson Acácio dos Santos, movimentou R$ 38 bilhões de 2015 a 2021. A Polícia Federal afirma que Glaidson planejava deixar o país no dia em que foi preso. Segundo informações, sua esposa conseguiu sacar R$ 1 bilhão e estaria foragida nos Estados Unidos.

A economista Renata Barreto arremata: “Histórias de pirâmide financeira no Brasil não faltam. Mas as pessoas continuam acreditando que existe fórmula mágica para ganhar dinheiro e ficam cegas pela ganância”. E enquanto elas acreditarem o esquema vai continuar fazendo mais vítimas.

Últimas

    http://meuestilo.r7.com/patricia-lages