CPI da Covid

Patricia Lages Análise: Culpado sem direito de provar o contrário

Análise: Culpado sem direito de provar o contrário

CPI da Covid começou com veredito pronto e as provas disso estão nas falas dos que conduzem a comissão

Nise Yamaguchi foi desrespeitada por senadores

Nise Yamaguchi foi desrespeitada por senadores

Leopoldo Silva/Agência Senado - 01.06.2021

Mais uma mulher que se dispõe a prestar esclarecimentos na CPI da Covid é desrespeitada por senadores cuja principal função parece ser a de envergonhar uma nação inteira. E esse papel, sem sombra de dúvida, está sendo desempenhado magistralmente.

Nise Yamaguchi, de 62 anos, médica oncologista e imunologista, com doutorado em pneumologia, premiada e reconhecida internacionalmente por seus trabalhos contra o câncer de pulmão – principal órgão acometido pela covid-19 – ouviu, com toda paciência e educação, um festival de desaforos e desrespeito em seu depoimento à CPI. A condução da sessão foi tão absurda que até a senadora Leila Barros, da oposição, reclamou que a convidada não estava conseguindo concluir um raciocínio sequer: "Ela toda hora está sendo interrompida", protestou a senadora.

Diferentemente de várias outras CPIs que terminaram em pizza, esta já começou disposta a cumprir seu objetivo: estabelecer o governo federal como único culpado por todas as falhas no combate à pandemia. Qualquer pessoa com dois neurônios chega a essa conclusão apenas lendo a justificativa dada pelo ministro Barroso do STF (Superior Tribunal Federal) para sua instauração: apurar se houve falhas por parte do governo federal. Ponto.

A CPI não tem o objetivo de investigar os culpados pelas falhas, sejam eles quem forem, mas sim em focar apenas um único suspeito. Só isso já seria um fator de total descrédito da comissão, afinal de contas, se o próprio STF concedeu autonomia aos estados e municípios no combate à pandemia, tirando os poderes das mãos do governo federal, como pode investigar justamente quem não podia intervir?

Durante o depoimento de hoje, o senador Otto Alencar se propôs a fazer uma espécie de chamada oral, perguntando à dra. Nise a que grupo pertence a covid-19, ao que ela respondeu que se tratava de um coronavírus. Mas, não contente com a resposta, ele continua: "Mas a que grupo?" Porém, antes que ela respondesse, ele a interrompe dizendo: "A senhora não sabe" e, para responder o que já havia sido respondido, ele diz que é um coronavírus...

Continuando seu show de falta de educação e decoro, ele questiona: "Qual é o exame de escolha que se deve fazer para mostrar se o paciente desenvolveu imunidade ou não?", ao que ela responde: "Anticorpos neutralizantes". Porém, como a raiva pode tornar as pessoas virtualmente surdas, ele faz uma série de comentários maldosos e, por fim, responde o que ela já havia respondido: "São anticorpos neutralizantes, doutora. A senhora não sabia!"

Mas Alencar não foi o único a fazer um papelão que envergonha qualquer pessoa com o mínimo de senso de justiça. Omar Aziz, cujos familiares – incluindo a esposa – foram presos pelo desvio de milhões de reais da saúde do Amazonas, pronuncia as seguintes frases: "Quem está nos vendo nesse momento, não acredite nela", "Eu não sou médico, mas ela não está certa" e, por fim, solta o que todo mundo já sabia: "Deixa a convidada falar. A nossa opinião não vai mudar".

É a opinião deles que vai para o relatório final da CPI que, como a condução das investigações demonstra claramente, já está pronto e, independentemente dos depoimentos passados e futuros, não vai mudar. Parabéns a todos os envolvidos.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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