Patricia Lages Análise: Consumo emocional aumenta, orçamento diminui

Análise: Consumo emocional aumenta, orçamento diminui

Durante a pandemia, a maioria dos brasileiros perdeu renda, mas os gastos aumentaram e o desperdício de alimentos também

Nova legislação facilita doação de alimentos

Nova legislação facilita doação de alimentos

Lazarete Júnior/Fotoarena/Folhapress - 20.03.2019

A pandemia da covid-19 mudou não só a rotina dos brasileiros, mas também seus hábitos de consumo. Segundo estudo da CNDL (Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas), desenvolvido em conjunto com a Offer Wise, 47% das pessoas declararam passar mais tempo em casa e, por conta disso, as despesas com supermercado aumentaram para 68% dos entrevistados.

A alta nos preços dos alimentos contribuiu para o aumento das despesas, porém nem mesmo o aperto no orçamento conscientizou o brasileiro sobre o desperdício de comida. Enquanto um terço da população do país vive sob insegurança alimentar – desde a incerteza de ter alimento suficiente até efetivamente passar fome –, toneladas de alimentos são desperdiçados por diversos motivos.

O descarte de alimentos próprios para o consumo começa antes mesmo de sua comercialização. Supermercados, sacolões e feiras livres costumam descartar legumes, frutas e verduras puramente por padrões estéticos e não nutricionais. Além disso, 29% dos supermercados não possuem políticas de reaproveitamento, enquanto em 62% não há programas de doações.

Somente no ano passado uma nova lei federal passou a facilitar a doação de alimentos que, até então, era inibida pela RDC 216, regulamentada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). A regulação para doação era difícil de ser seguida e as sanções por descumprimento eram bastante severas.

Logo, qualquer estabelecimento que quisesse evitar problemas preferia jogar alimentos próprios para o consumo no lixo do que colocar na mesa de quem precisa. A lei 14.016 sancionada em junho de 2020 pelo presidente Jair Bolsonaro estabelece que a responsabilidade do doador termina no momento da entrega do alimento, o que encoraja, principalmente os restaurantes, a criar sistemas de doações. 

Para além da perda de cerca de 60% dos produtos no trajeto entre o produtor e a mesa do brasileiro, uma vez dentro de casa, os alimentos também não têm sido devidamente valorizados. Por vários meses, principalmente no início da quarentena, o supermercado se tornou o passeio para muitas famílias que, impedidas de frequentar shoppings e outros estabelecimentos comerciais, acabavam comprando mais do que o necessário para tentar suprir carências emocionais.

Mesmo com a geladeira e a despensa abastecidas, uma pesquisa do aplicativo Mobilis aponta que os gastos com delivery de comida pronta aumentaram mais de 94% durante a pandemia. O “eu mereço” tomou uma proporção maior e tornou-se uma tentativa de compensar as restrições em outras atividades. Com isso, acredita-se que o desperdício tenha crescido ainda mais nesse período ao somar-se o descarte de alimentos não utilizados e as sobras dos pratos prontos encomendados via aplicativo.

A perda do medo de comprar pela internet contribuiu para o aumento nas vendas de diversos tipos de produto, principalmente dos itens para o lar e home office. Porém, um dos efeitos colaterais da aquisição de produtos entregues em domicílio é uma espécie de dependência emocional em ouvir a campainha tocar anunciando a chegada de mais uma compra que parece ser um presente.

Assim como as palavras "alimento" e "desperdício" não deveriam aparecer em uma mesma frase, as palavras dinheiro e emoção também não. O uso do dinheiro está muito mais ligado ao comportamento do que à matemática, mas só é possível atingir resultados positivos quando se administra com a razão.

Ao mesmo tempo que o desperdício de alimentos deve ser banido, a emoção deve ser ignorada quando se fala em finanças. A boa administração do dinheiro exige responsabilidade e bons hábitos, logo, ou o consumidor age baseado na razão, ou sofre com o resultado da emoção.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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