Patricia Lages Análise: Como a inadimplência afeta a vida de quem deve

Análise: Como a inadimplência afeta a vida de quem deve

Levantamento registra alta da inadimplência e atinge mais de 63 milhões de pessoas. Saiba como isso afeta a vida dos brasileiros

O Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas no Brasil, desenvolvido pela Serasa no mês de outubro, registrou a maior alta do ano, com 63,4 milhões de brasileiros inadimplentes. Para entendermos o que esse número significa, vamos fazer uma comparação com o índice de População Economicamente Ativa (PEA) no país, ou seja, a quantidade de pessoas ocupadas.

Em outubro deste ano, o Brasil registrou redução no desemprego, fazendo o número de pessoas ocupadas chegar aos 90,2 milhões, segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Relacionando a inadimplência com o número de habitantes do país, 30% da população está com o CPF negativado. Porém, como esse total inclui pessoas fora da idade produtiva (crianças e adolescentes), relacionando a inadimplência ao PEA, mais de 70% das pessoas já perderam a capacidade de pagamento de suas dívidas.

A história das “parcelinhas que cabem no bolso” fez muita gente contratar um empréstimo carregado de juros

A história das “parcelinhas que cabem no bolso” fez muita gente contratar um empréstimo carregado de juros

wayhomestudio / freepik - 27.07.2021

A soma das dívidas passa de R$ 253,65 bilhões, uma média superior a R$ 4 mil por pessoa e R$ 1.189 por dívida. É um número muito elevado para um país com média salarial de R$ 2.543. Os maiores responsáveis pela inadimplência são bancos e cartões de crédito, com 28,70% do total de dívidas, seguidos pelas contas básicas, como água e luz, com 23,5%, e pelo varejo, com 13%.

Como educadora financeira, atendo pessoas do Brasil todo e de várias classes sociais há mais de dez anos e posso afirmar que, em relação aos empréstimos, a maioria das pessoas nem sequer se lembra em que gastou o dinheiro. Grande parte dessas operações foi feita apenas porque o gerente do banco ofereceu ou por causa da publicidade. Não havia um objetivo, nem mesmo planejamento. A história das “parcelinhas que cabem no bolso” fez muita gente contratar um empréstimo carregado de juros — que comprometem o orçamento por vários anos — sem a menor necessidade.

Hoje, um número enorme de pessoas não consegue alugar um imóvel, levantar capital para abrir um negócio ou até mesmo conseguir um emprego formal por estar com o popular “nome sujo”. Por mais que seja uma conduta irregular negar emprego a quem está negativado, as empresas preferem dar oportunidade a quem está com as contas em dia, e, com isso, fica cada vez mais difícil obter renda e sair da inadimplência.

O Brasil precisa de educação financeira, pois só assim a população saberá fazer bom uso do crédito e entenderá os estragos que operações financeiras com juros altos podem fazer ao orçamento e à vida prática como um todo. Mas, ao que tudo indica, os governos estão mais focados em medidas populistas, como distribuição de todo tipo de auxílio, do que em auxiliar a população a pensar com a própria cabeça. É muito mais difícil governar pessoas conscientes de seus direitos, mas muito mais fácil manipular quem ainda não aprendeu as regras do jogo.

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