China

Patricia Lages Análise: China quer punir pais pela má educação dos filhos

Análise: China quer punir pais pela má educação dos filhos

Projeto prevê que pais ou tutores sejam responsabilizados pelo mau comportamento de filhos pequenos e sofram punições

  • Patricia Lages | Patricia Lages

Peso da criação dos filhos acaba nas costas das mulheres

Peso da criação dos filhos acaba nas costas das mulheres

Michael Borgers/Pixabay

Parlamentares chineses criaram um projeto de lei que pretende punir os pais pelas más-criações dos filhos, que vão desde falar alto em um restaurante até chorar em público ou quebrar algo em uma loja. Se a criança se comportar mal ou cometer um delito, haverá consequências para os pais ou tutores, que poderão passar por programas de reeducação familiar.

O projeto prevê também que os pais sejam obrigados a estabelecer a agenda dos filhos incluindo brincadeiras, exercícios físicos e descanso “da forma correta”, ou seja, longe da tecnologia, principalmente de jogos e redes sociais. Fico pensando em como os pais brasileiros fãs do socialismo e com uma quedinha pelo comunismo receberiam a notícia de que o Brasil adotaria a mesma política, impondo a eles punições caso seus filhos chorassem na rua.

Desde 1979, quando a China interveio severamente nas famílias com a política do filho único, deu-se início a uma disparidade de gêneros no país. Por conta de uma cultura que privilegia os homens em detrimento das mulheres, milhões de casais optaram por interromper as gestações de meninas, recorrendo a abortos forçados, preferindo dar à luz meninos, que, historicamente, têm uma vida mais fácil. Hoje, a China enfrenta um enorme desequilíbrio, com um excedente de cerca de 35 milhões de homens em relação ao número de mulheres.

Em 2016, o governo suspendeu a proibição, permitindo que as famílias tivessem dois filhos, mas mesmo assim as chinesas continuam preferindo não ser mães ou ter apenas um filho. Para as mulheres é muito mais difícil conseguir um emprego com um bom salário, por isso elas têm de se empenhar muito mais, ficando sem tempo para educar uma criança. Na China, a educação dos filhos é quase que exclusivamente uma tarefa da mãe, enquanto a maioria dos pais não chega nem sequer a tirar os 14 dias de licença-paternidade a que tem direito.

Mais mulheres do que homens têm de enfrentar as longas jornadas de trabalho conhecidas como 996: das 9h da manhã às 9h da noite, seis dias por semana. As mulheres também recebem remuneração normalmente mais baixa, e cerca de 40% dos trabalhadores têm de sobreviver com uma remuneração irrisória: mil iuanes, aproximadamente R$ 740 por mês. Em outras palavras, 600 milhões de chineses (quase o triplo da população brasileira) não usufruem da riqueza do país, recebendo menos que o equivalente a um salário mínimo brasileiro por mês para uma carga horária de trabalho de 72 horas semanais.

Considerando-se a cultura e o histórico da China, tudo indica que, se a lei for aprovada, quem arcará com a má educação dos filhos (ainda que seja apenas falar alto publicamente) serão as mães, que já enfrentam uma série de dificuldades devido à disparidade de tratamento que recebem em relação aos homens. Mas, aparentemente, para as feministas está tudo bem.

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