Patricia Lages Análise: Carro 'popular' custa mais de 80 salários mínimos

Análise: Carro 'popular' custa mais de 80 salários mínimos

Vivemos no país onde um carro considerado popular beira os R$ 90 mil, cuja carga tributária embutida passa dos 70%

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Carro de entrada da Volkswagen, Gol pode custar o equivalente a mais de 80 salários mínimos

Carro de entrada da Volkswagen, Gol pode custar o equivalente a mais de 80 salários mínimos

Divulgação

A pedido da revista Quatro Rodas, a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) preparou uma radiografia da composição de preço de um automóvel zero quilômetro em São Paulo, considerando as características mais comuns no país, como motor bicombustível entre 1.0 e 2.0.

O preço líquido de referência utilizado nesse levantamento foi de R$ 100 mil, o que inclui custos de produção, o lucro da montadora, taxas e impostos. Ao desmembrar esse preço, nos deparamos com a seguinte carga tributária:

• ICMS 14,5%
• PIS/Cofins 11,6%
• IPI 11%

De acordo com a entidade, como esses impostos incidem sobre o preço líquido (neste caso R$ 100 mil), o valor do veículo até aqui já estaria em R$ 146.140. Porém, há os custos de emplacamento e IPVA (4%), elevando o valor a R$ 151.990 e a tributação em impostos diretos aos 52%. O levantamento dá conta de que essa porcentagem pode ser maior em caso de veículos a diesel, chegando aos 69,5%. Porém, na prática, devido a outros impostos embutidos no processo de produção, a incidência dos tributos eleva os preços em mais de 70%.

O Gol, veículo hatch de entrada da Volkswagen, já passa dos R$ 88 mil reais, o que equivale a mais de 80 salários mínimos, ou mais de seis anos e meio de trabalho. Isso se não houvessem impostos descontados desses salários e o trabalhador não gastasse um centavo.

Também somos o país onde o iPhone 12 foi vendido em 2020 pelo maior preço do mundo. Enquanto o aparelho custava US$ 1.523 nos Estados Unidos, no Brasil o valor chegou aos US$ 2.535, segundo mapeamento do Tecnoblog. Com a chegada do iPhone 13 custando de R$ 9.500 a R$ 15.500, provavelmente estaremos novamente entre os preços mais altos do mundo.

Vivemos no país que tributa os salários e o consumo, onde cada produto que compramos contém impostos em cascata que elevam os preços a valores inacreditáveis, mas onde, mesmo assim, as pessoas se desdobram para comprar o que não podem com o dinheiro que não têm.

A esquizofrenia tributária aliada à falta de educação financeira cria um ambiente propício para que a situação só piore, pois a ignorância de muitos enche os bolsos de poucos. E no topo dessa cadeia alimentar estão justamente aqueles que decidem o tamanho da fatia que tomarão – legalmente – do nosso bolo. Mas enquanto todos são vítimas desse sistema absurdo, a população se divide e subdivide cada vez mais lutando uns contra os outros (e não com o verdadeiro inimigo de todos). Continuemos assim, pois aqueles que lucram com isso estão adorando.

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