Patricia Lages Análise: Burocratização da caridade “em nome da saúde"

Análise: Burocratização da caridade “em nome da saúde"

Na onda de que todas as arbitrariedades são “em prol da saúde”, distribuir comida a quem tem fome pode se tornar infração

Doação de comida em Curitiba agora tem de ser autorizada

Doação de comida em Curitiba agora tem de ser autorizada

Luis Pedruco/Estadão Conteúdo - 1/4/2021

É proibido trabalhar. É proibido sair de casa depois do toque de recolher. É proibido comprar coisas que não sejam “essenciais”. É proibido abastecer o carro. É proibido rodar com seu carro. É proibido sacar dinheiro em caixas eletrônicos. Até maio de 2020, estados e municípios haviam criado cerca de 10 mil leis durante a pandemia, mas agora já deu para perder as contas.

São decretos que propõem regras das mais absurdas, a exemplo do megarrodízio na cidade de São Paulo, que proibiu a circulação de veículos particulares para “contenção da propagação do coronavírus”, mas que, na prática, provocou superlotação no transporte público, aglomerando pessoas que poderiam estar seguras dentro de seus veículos que ficaram vazios na garagem de casa. E o que dizer do decreto do governador gaúcho que se acha no direito de definir o que se pode ou não comprar dentro de um supermercado?

Mas para deixar todos os demais decretos estapafúrdios no chinelo, eis que Rafael Greca, o prefeito aparentemente muito bom de garfo, pretende criar o projeto “Mesa Solidária” na capital paranaense. É claro que o texto com novas regras para distribuição de alimentos para pessoas em situação de rua é cheio de termos que remetem a “boas intenções”, mas que, traduzindo em miúdos, significa que quem doar comida nas vias públicas de Curitiba sem autorização prévia da prefeitura será advertido e poderá ser multado.

A justificativa, é claro, não poderia ser outra: conter os “riscos à saúde da população em situação de rua”. Não, não é brincadeira. Ou, de repente, até é. Mas de muito mal gosto... Para Greca, distribuir comida em via pública causa “acúmulo de resíduos orgânicos e rejeitos, ocasionando a proliferação de pragas e vetores urbanos”, o que seria um risco à saúde de quem “mora” na rua. Chega a ser inacreditável que alguém realmente acredite que uma medida desse tipo esteja, de fato, visando a saúde de quem não tem nem sequer o que comer.

Sempre imagino a situação de um extraterrestre chegando à Terra tentando entender as medidas sem pé nem cabeça tomadas durante a pandemia. Como explicar que o governo nos proíbe de trabalhar, aumenta os impostos e ainda diz que isso é para o nosso bem? Como justificar que a redução dos horários do comércio e dos serviços essenciais visa não aglomerar as pessoas, quando a medida faz com que todo mundo recorra a eles ao mesmo tempo?

Como explicar que há pessoas que dependem da caridade da população – pois o governo não tem a decência de lhes prover nem sequer uma refeição ao dia – agora correm o risco de não poderem mais receber alimentos sem que um burocrata (daquele mesmo governo que não lhes dá nada) decida como, onde e quando elas poderão ser alimentadas. E mais: como dizer ao nosso amigo ET que o decreto que tira a possibilidade de essas pessoas receberem livremente o prato de comida que as mantêm vivas, é para ajuda-las a manterem-se vivas? Acho que tentar explicar que é melhor que essas pessoas não comam para que possam dormir em calçadas livres de ratos e baratas não vai colar...

E como explicar que o mandatário dessa mesma cidade tenha a desfaçatez de dizer, publicamente, que nunca cuidou os pobres, por não ser São Francisco de Assis, e que a primeira vez que tentou “carregar um pobre”, colocando-o dentro de seu carro, vomitou por causa do cheiro? Só não se sabe o que é pior: essa declaração abjeta ou intitular uma ação absurda de “Mesa Solidária”. Que solidariedade há em não ajudar um cego a atravessar a rua, mas criar regras para quem se dispõe a fazê-lo chegar do outro lado?

O que dá muita, mas muita vontade de vomitar é termos políticos que se acham superiores, mas que são tão limitados a ponto de nem sequer terem a capacidade de entender que foram eleitos para servir à população que desprezam. Atitudes como essas são vergonhosas, imorais e dignas de serem lembradas nas próximas eleições, para que pessoas desse tipo sejam extirpadas do serviço público, afinal, quem não sabe trabalhar para servir, não serve para trabalhar.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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