Patricia Lages Análise: Burger King e o marketing da lacração

Análise: Burger King e o marketing da lacração

Nova campanha da rede de fast-food usa crianças e propõe que elas podem explicar assuntos LGBTQAI+ para adultos

Cena da nova campanha do Burger King

Cena da nova campanha do Burger King

Reprodução/Burger King

O filme comercial lançado recentemente pela rede de fast-food Burger King começa com a pergunta: “Não sabe como explicar LGBTQAI+ para crianças?” Porém, diferentemente da expectativa que a pergunta levanta, a sequência não traz profissionais dando dicas de como tratar o assunto com os pequenos, mas sim, a afirmação: “Aprenda com eles”.

As cenas seguintes mostram crianças dizendo frases editadas e montadas de forma que a fala seguinte complementa a anterior. Entre as afirmações estão: “para mim todo mundo pode amar todo mundo”, “eu acho que pode se casar com homem, pode se casar com mulher”, “a criança pode viver o mundo de outro jeito” e “ponto final”.

Frases como estas podem ser comuns a qualquer criança, afinal de contas, quais delas discordariam de que todo mundo pode amar todo mundo, se casar com quem quiser e viver o mundo de formas diferentes? É óbvio que esse tipo de fala vem carregada de inocência, característica presente nessa fase da vida e, portanto, não representa que haja total entendimento sobre o assunto a ponto de explicar a diversificação de gêneros que a ideologia LGBTQAI+ propõe.

Para além do tema, o que chama a atenção é a exploração da imagem de crianças por parte de uma empresa que produz alimentos não recomendáveis para elas. Segundo o artigo 5º do Marco Legal da Primeira Infância, a saúde, a alimentação e a nutrição infantil “constituem áreas prioritárias para as políticas públicas”, bem como “a adoção de medidas que evitem a exposição precoce à comunicação mercadológica”. A rede pode até alegar que a propaganda não é direcionada para o público infantil, porém, tudo o que traz a imagem de crianças obviamente vai chamar a atenção dos pequenos.

O vídeo, postado ontem (23), no canal do YouTube do Burger King, no momento em que produzimos este artigo, se aproxima das 950 mil visualizações, com um detalhe: o número de “deslikes” é o triplo do número de “likes”, deixando bem clara a insatisfação da maioria das pessoas com a campanha. São mais de 26 mil comentários fazendo uma série de críticas à postura da empresa quanto à exploração da imagem de crianças e do tema abordado. Seguem alguns deles:

“Acho uma apelação esse tipo de marketing”.

“Deixem nossas crianças fora de suas lacrações”. 

“Que triste ver o comércio, agindo assim, são capazes de tamanho absurdo por dinheiro”.

“Respeito a diversidade é uma coisa, militância envolvendo crianças fere o ECA”.

“Em um regime político livre e plural, que se pretenda respeitoso para com as diferenças, é papel da família estabelecer os fins que pretenda perseguir, os valores que queira professar e as informações a que seus filhos terão acesso. Burger King, você não faz parte da minha família”.

“Eu não entendo por que esse pessoal não pode ser feliz com a sua sexualidade, com as suas escolhas, sem botar criança no meio”.

“Cada um pode fazer a sua escolha, mas é um absurdo envolver crianças nisso”.

É óbvio que o Burger King sabia que uma campanha desse tipo iria gerar uma repercussão negativa, até porque, não é a primeira vez que isso acontece. Nesse caso, o que fica bastante claro é que o negócio dessa rede deixou de ser – há muito tempo – a venda de sanduíches.

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