Análise: Bullying presente em aulas on-line

Além de todas as dificuldades do ensino remoto, alunos têm de enfrentar problemas com autoimagem e cyberbullying

Aulas em casa favorecem o bullying online

Aulas em casa favorecem o bullying online

Marc Thele/Pixabay

Por conta do fechamento das escolas, estudantes de todas as idades vêm enfrentando uma série de dificuldades que vão muito além do ensino. Muitos alunos que trocaram de escola em 2020, ou que passaram do ensino fundamental para o médio, não chegaram a conhecer pessoalmente os colegas de classe, nem seus professores. E mesmo para aqueles que não enfrentaram essas mudanças, a falta do convívio social tem causado impactos psicológicos bastante negativos.

Segundo artigo publicado pela Fiocruz, o isolamento por conta da pandemia tem causado medo de adoecer e morrer e também de perder pessoas queridas. Nas crianças, esse sentimento desencadeia crises de angústia, irritabilidade, tristeza e alterações de apetite e sono. Ainda não se sabe ao certo como esses impactos afetarão o ensino, como os alunos irão repor as perdas ou quanto tempo isso levará. Mas é certo que, para a maioria, houve prejuízos.

Já no caso dos adolescentes, começam a despontar novas condições psicológicas, como a “síndrome da gaiola”, na qual, mesmo com a “porta aberta”, ou seja, a liberação das aulas presenciais, jovens até 18 anos não querem sair de casa. As reações de medo causam crises de pânico e ansiedade apenas ao imaginarem que estarão em ambientes com mais pessoas.

Gabriel Lopes, psiquiatra que deu nome à síndrome, se diz preocupado com a desesperança que tem visto nos adolescentes, o que classificou como “uma entrega”. Para ele, os jovens precisam se revoltar com as dificuldades que a pandemia trouxe e os pais devem ajudá-los a reagir, ainda mais diante do aumento expressivo da depressão entre adolescentes.

Para complicar ainda mais, os alunos precisam enfrentar novas dificuldades criadas pela pandemia: o aumento da rejeição à própria imagem e o cyberbulling. Para aqueles que acreditam que as aulas on-line seriam “tiradas de letra” pela geração que já nasceu em frente às telas, é preciso entender que essa modalidade levou os alunos a ficarem diante da própria imagem por várias horas todos os dias, e isso potencializou as comparações com os colegas e a observação de “defeitos”. Uma simples espinha pode fazer com que um aluno – especialmente as meninas – não queira assistir aulas com a câmera aberta, o que é exigido por diversas escolas.

E o novo bullying consiste em tirar “prints” para produzir “memes”, ou seja, fazer capturas de tela congelando expressões engraçadas e criar artes zombando dos colegas. Esse tipo de trote pode causar problemas muito maiores do que aqueles praticados dentro da escola, pois é espalhado nas redes sociais onde, além de eternizado, tem um alcance infinitamente maior.

O ensino remoto não deve ser encarado como uma solução efetiva para todos, não só por conta dos alunos que não possuem equipamentos adequados ou pela falta de acesso um bom pacote de dados de internet, mas também porque a escola tem um papel social importante, que vai muito além do acadêmico.

É preciso que os problemas que estão sendo gerados pelo isolamento de crianças e jovens não sejam minimizados e que políticas públicas venham ser desenvolvidas para dar assistência psicológica àqueles que perderem muito mais do que dois anos de estudos.

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