Análise: Brasileiro ganha mal e gasta pior

Apesar dos baixos salários, brasileiros gastam mais com juros, jogos e tabaco do que com arroz, verduras e legumes

  • Patricia Lages | Patrícia Lages, do R7

Brasileiro está gastando pior

Brasileiro está gastando pior

Marcos Santos/USP Imagens

O levantamento mais recente sobre os hábitos de compra das famílias brasileiras foi divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em setembro de 2020 e compreende os anos de 2017 e 2018. O estudo é parte da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) e é uma das bases para o cálculo do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

É imprescindível considerar que os dois últimos anos, com as restrições da pandemia, foram totalmente atípicos e, por conta disso, os hábitos de consumo dos brasileiros mudaram em relação a uma série de coisas. Porém, essas mudanças não significam necessariamente um amadurecimento financeiro, mas, em muitos casos, a simples troca de velhos hábitos ruins por novos hábitos igualmente ruins (ou até piores).

De acordo com a pesquisa, entre as cinco despesas principais, a maior foi com habitação, que soma aluguel, condomínio e contas de água, luz, gás etc., consumindo cerca de 34% da renda. Em segundo lugar, pela primeira vez, os custos com transporte (21%) ultrapassaram os gastos com alimentação (17%). Em quarto lugar vinham as despesas com saúde (8%) e, por fim, educação (4%). Os cerca de 16% restantes dividiam-se entre serviços, taxas, vestuário, impostos, higiene e cuidados pessoais, lazer etc.

Ao analisar os itens de cada categoria é possível verificar que o brasileiro gasta mais com tabaco do que com verduras e legumes, além de destinar mais dinheiro para jogos e apostas do que para a compra de arroz. Mesmo em famílias com insegurança alimentar, o gasto com arroz foi, em média, de R$ 5,96, enquanto, com jogos, passou dos R$ 6.

Conforme dados recentes divulgados pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), 11,79% do orçamento das famílias, no primeiro semestre de 2021, foi destinado ao pagamento de juros. Ou seja, durante os anos de pandemia, as dívidas aumentaram e, para algumas famílias, gasta-se mais com juros do que com alimentação.

Ou seja, se o brasileiro ganha mal, gasta ainda pior. Essa realidade só poderá ser mudada quando as pessoas perceberem que a educação — principalmente financeira — precisa fazer parte de seu dia a dia e que é necessário aprender primeiro a administrar bem o pouco para, então, saber administrar o muito que podem alcançar.

Sem isso, tudo indica que continuaremos analisando dados cada vez piores e, se a tendência se mantiver, ano após ano bateremos novos recordes de endividamento e inadimplência.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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