Patricia Lages Análise – Brasil, país da desonestidade normalizada

Análise – Brasil, país da desonestidade normalizada

Basta navegar alguns minutos em sites de produtos usados para encontrar itens que comprovam a normalização do engano

Golpistas usam adesivos para turbinar cartões de créditos

Golpistas usam adesivos para turbinar cartões de créditos

Pixabay

É fato que estamos vivendo numa era em que parecer se tornou muito mais importante do que ser. E é claro que, como tudo o que extrapola os limites do bom senso, no jogo das aparências não há regras. Para passar a imagem de que somos alguém que não somos e de que podemos ter o que não podemos, vale tudo.

Há vários anos não compro quase nada sem fazer uma boa pesquisa na internet, principalmente em sites de produtos de segunda mão. E foi numa dessas navegações que me deparei com algo que, na minha concepção, seria inimaginável: adesivos para cartão de crédito. Não se trata apenas de customizar o cartão com o emblema do time do coração ou com o rosto do Julius, o pai mão-de-vaca do seriado Todo Mundo Odeia o Chris, estampando o bordão: “se eu não comprar nada o desconto é maior”.

Os tais adesivos têm a função de “turbinar” os cartões comuns, transformando-os nas versões mais desejadas dos amantes das aparências: “black”, “infinity”, “platinum”, “limitless” etc. O objetivo da nova “roupagem” é óbvio: parecer que é alguém que possui crédito sem limite, ainda que não tenha nem onde cair morto. Para muitos, esse tipo de coisa pode parecer apenas uma piada, mas basta um olhar mais atento para concluir que não deixa de ser um tipo de engano e, portanto, algo que passa longe do que se pode chamar de honesto.

Entrando mais a fundo no comércio de produtos inimagináveis, eis que me deparo com um mercado curioso: caixas de sapato e sacolas de papelão de grifes famosas sendo vendidas – vazias – por dezenas e até centenas de reais. Eu simplesmente não podia entender o que levaria alguém a pagar R$ 300 por uma “caixa original” de sapatos Christian Louboutin..., mas, depois de um tempo, a ficha caiu: os falsificadores precisam dessas embalagens para que seus produtos piratas pareçam originais.

Nesse mercado que amplia o conceito de desonestidade, quem incluir a nota fiscal de compra do produto original às caixas, sacolas ou dust bags (saquinhos em tecido que acompanham sapatos e bolsas) consegue um valor ainda maior.

Se o brasileiro usasse sua genialidade para atividades legais, certamente seríamos uma das maiores potências mundiais. Mas enquanto a criatividade estiver muito mais a serviço do engano, continuaremos sendo o país onde a desonestidade se tornou algo normal e corriqueiro.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas

    http://meuestilo.r7.com/patricia-lages