Análise: boas intenções não são o suficiente no trabalho e na vida

Querer fazer não é, nem nunca foi, sinônimo de resultado. Por mais que as intenções sejam boas, não são capazes de substituir as ações

É necessário mais que boas intenções

É necessário mais que boas intenções

Mohamed Hassan / Pixabay

Meu trabalho me leva a manter contato com empresas dos mais diversos setores e ramos de atividade. Porém, uma das coisas que a maioria delas tem em comum é a tentativa de justificar grandes incompetências com boas intenções.

Há funcionários que agem sem o menor preparo, que provocam prejuízos e colocam operações inteiras em risco, mas continuam em seus empregos por uma simples razão: eles têm boas intenções. Nisso, já ouvi de tudo: desde que eu preciso entender que o funcionário só estava tentando ajudar, até uma das mais frequentes (mas que até hoje não sei dizer o que significa): “Ah... o fulano é tão ‘fofo’! Se você o conhecesse entenderia!” Não. Não consigo entender que “fofura” justifique más ações quando se tratam de adultos atuando em empresas e não de crianças no jardim de infância.

Há um tempo atrás, um gerente comercial mentiu dizendo que o produto que pedi estava esgotado e que eu deveria trocar pela versão similar mais barata. Apesar do desconto, a tal versão não servia para mim. Conversando com seu superior, comentei sobre a necessidade de repor o tal produto e ele, surpreso, disse que havia uma grande quantidade em estoque.

Ao verificar o ocorrido, a direção da empresa “justificou” o fato de o gerente ter mentido – e não ter atendido nem a mim e nem a todos os demais clientes que pediram o produto regular – por estar com a “boa intenção” de desovar o estoque da versão mais barata.

Questionei se valeu a pena ou se houve prejuízo pela perda das vendas do produto regular e a resposta não me surpreendeu em nada: “Sim, tivemos prejuízos e perda de clientes. Além disso, os que permaneceram querem o produto regular com o preço da versão mais barata. Não sabemos ainda como resolver, mas vai dar tudo certo!”

Questionei o que houve com o funcionário mentiroso e causador de um tremendo prejuízo e, aí sim, a resposta me surpreendeu: “Como assim o que houve? Está aqui! É uma ‘fofura’ de pessoa, todo mundo ama. Ele vai ligar para te pedir desculpas, tá? Você vai ver que ele não tem problema em se desculpar... gente fina mesmo!”

A empresa perdeu clientes, teve prejuízos e ainda herdou um tremendo problema. Mas o funcionário “fofo” vai muito bem, obrigado! Muitas vezes os problemas no trabalho e na vida são criados por erros cheios de “boas intenções” e, pior que isso, só o fato de as pessoas acharem que trata-se de uma justificativa plausível quando não é. A competência e a lisura não podem ser substituídas por falhas graves ainda que repletas de “boas intenções”. Disso, a nossa política está cheia e ninguém aguenta mais. Mas esta é apenas a minha análise e eu creio que não sou fofa...

Patricia Lages

É jornalista internacional, tendo atuado na Argentina, Inglaterra e Israel. É autora de cinco best-sellers de finanças e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. Ministra cursos e palestras, tendo se apresentado no evento “Success, the only choice” na Universidade Harvard (2014). Na TV, apresenta os quadros "Economia doméstica" no programa "Mulheres" TV Gazeta e "Economia a Dois" na Escola do Amor, Record TV. No YouTube mantém o canal "Patrícia Lages - Dicas de Economia", com vídeos todas as segundas e quartas.