Patricia Lages Análise: Banalização do preconceito encobre preconceituosos

Análise: Banalização do preconceito encobre preconceituosos

Se tudo for considerado preconceito, os verdadeiros preconceituosos ficarão camuflados no meio da multidão

Diversidade é respeitar diferenças

Diversidade é respeitar diferenças

Pixabay

Há alguns anos, quando fazia produção executiva para fotografia de moda, atendi dois clientes que, além de concorrentes, queriam desenvolver praticamente a mesma campanha. O maior desafio da equipe foi criar propostas diferentes para briefings tão similares, mas tínhamos bons profissionais e ambas as campanhas foram aprovadas.

O próximo passo era enviar fotos de modelos para os clientes definirem suas escolhas. Isso era feito por meio de uma pré-seleção que levava em conta as medidas das profissionais, variando ao máximo os tipos físicos: loiras, morenas, negras, orientais, ruivas etc. e também a faixa de cachê que o orçamento permitia.

Mas, ao recebermos os retornos, mais uma similaridade: os dois pediram que reenviássemos os books excluindo todas as negras para facilitar o trabalho. Como os perfis solicitados no briefing não excluíam as negras, questionei a ambos se o problema era a nossa pré-seleção – para mandarmos outras opções – ou se eles, de fato, não queriam incluir nenhuma negra na campanha. Apesar de a atitude de ambos ser a mesma, foi justamente aí que encontramos a maior diferença entre eles: um era preconceituoso, o outro não.

Enquanto um dos clientes deixou bem clara sua posição preconceituosa, dizendo com todas as letras que, para ele, “negro não é gente” e que era melhor “sair com homem barbado do que com uma negra”, o outro fez questão de explicar o motivo: um processo. Conforme relato do cliente, em uma de suas últimas campanhas com quatro modelos – loira, morena, ruiva e negra – a cada etapa da produção das fotos, a modelo negra acusava a equipe de preconceito racial.

Ao saber que o cabeleireiro queria começar por ela (por requerer mais tempo), reclamou que ele “queria dizer” que seu cabelo era “ruim” e, portanto, ele era preconceituoso. A cada troca de roupa ela reclamava que a dela era a mais “feia”, portanto, as produtoras eram preconceituosas. Cada vez que o fotógrafo trocava as posições das modelos e calhava de ela ficar um pouco mais atrás, dizia que ele queria “escondê-la” e, portanto, era mais um preconceituoso.

Por conta do clima que se formou, o cliente pediu um intervalo e a chamou para conversar. Segundo ele, foi uma tentativa de pontuar que todas estavam recebendo o mesmo tratamento, o mesmo cachê e usando roupas da mesma confecção, mas só ela estava reclamando. Porém, para ela, ele estava “querendo dizer” que o fato de ela estar ali já era “um favor” e que ela deveria ser grata e trabalhar de boca fechada “como uma escrava”.

Diante do desentendimento, a modelo abandonou o trabalho para registrar uma queixa de injúria por preconceito racial. Além disso, não permitiu que as imagens produzidas fossem usadas, o que fez com que o cliente tivesse de refazer todo o trabalho.

Uma das lições que se tira disso tudo é que o verdadeiro preconceituoso, aquele que declarou nem mesmo considerar que negros são pessoas, passou despercebido no meio da multidão de “preconceituosos imaginários”. É certo que preconceito existe e não deve ser minimizado, mas generalizar qualquer ação como discriminação racial é banalizar a causa e encobrir o que de fato acontece.

Julgar que um lado é sempre culpado enquanto o outro é sempre inocente, por si só, configura injustiça. Portanto, é preciso que todos nós saibamos não só respeitar nossas diferenças, mas também celebrá-las, pois é disso que a verdadeira diversidade se trata.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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