Patricia Lages Análise: avanço do Talibã escancara guerra de narrativas

Análise: avanço do Talibã escancara guerra de narrativas

Temos desde partido político festejando a “vitória” do regime terrorista até jornalista chamando os talibãs de “amigáveis”

Talibã voltou ao poder no Afeganistão

Talibã voltou ao poder no Afeganistão

EFE/EPA/STRINGER

Há muito tempo a verdade e o bom senso deram lugar às narrativas e uma verdadeira guerra ideológica tem se colocado acima de tudo e de todos. No último fim de semana, o Partido da Causa Operária (PCO), conhecido por apoiar regimes autoritários como o da Coreia do Norte, comemorou o avanço do Talibã no Afeganistão em suas redes sociais:

“Ao bater em retirada, o imperialismo estadunidense revela a crise em que se encontra. Sem sombra de dúvida, o avanço do Talibã representa uma enorme vitória sobre os piores inimigos dos oprimidos de todo o planeta. Pelo fim das ocupações imperialistas.” O texto vem acompanhado de uma foto com a frase: “A vitória do Talibã contra o imperialismo é uma vitória de todo povo oprimido.”

No mesmo ritmo, a CNN Internacional publica matéria em tom bastante positivo: “Calm and fear on the streets of Kabul as jubilant Taliban celebrate their victory”, ou seja: Calma e medo nas ruas de Cabul enquanto o Talibã celebra exultante sua vitória”. Enquanto apenas a palavra medo dá uma conotação negativa, a mensagem de calma, celebração, vitória e exultação trabalha em prol da causa.

Clarissa Ward, correspondente da CNN em Cabul, capital do país, aparece na tela usando a indumentária obrigatória imposta às mulheres pelo regime extremista e descreve o que vê nas ruas: “talibãs sorridentes e vitoriosos” e dá ênfase ao fato de que tomaram a cidade “sem dar um tiro sequer”, que estão armados “para manter a ordem” e que pessoas vêm ao encontro deles para “tirar fotos”.

Mas isso não é tudo, pois, segundo Ward, apesar de os talibãs estarem gritando “morte à America”, eles parecem “amigáveis” ao mesmo tempo. E finaliza: “é totalmente bizarro”. Realmente, chega a ser bizarra a forma como a imprensa relata o avanço de um regime extremista altamente violento e que oprime severamente as mulheres. Para citar algumas das proibições com as quais o Talibã prime as mulheres, além do uso exclusivo da burca, elas não podem estudar, trabalhar fora e nem sair de casa sem a companhia de um parente próximo do sexo masculino (irmão, marido ou pai).

Andar de bicicleta e moto também é proibido às mulheres, assim como pintar as unhas (sob o risco de terem seus dedos amputados), fazer barulho ao caminhar ou rir alto, pois nenhum homem deve ouvir seus passos ou sua risada. Nem mesmo dentro de casa as mulheres têm paz: não podem aparecer em varandas, têm suas janelas pintadas para que não sejam vistas do lado de fora e não podem ouvir música nem assistir filmes. Também é vetado às mulheres o simples ato de serem filmadas ou fotografadas.

Esse é o regime que partidos de esquerda e parte da imprensa “paz e amor” tentam mostrar de forma positiva, ao mesmo tempo que se dizem defensores das mulheres e dos oprimidos. Isso sim é totalmente bizarro.

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