Patricia Lages Análise: ausência de privacidade em troca de facilidades

Análise: ausência de privacidade em troca de facilidades

Dados coletados rendem lucro e conferem poder a quem os detêm e oferecem algumas facilidades a quem fornece. Será que vale a pena?

Facebook, empresa que controla o WhatsApp, desafia o direito à privacidade

Facebook, empresa que controla o WhatsApp, desafia o direito à privacidade

Flickr

Em 2010, Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, anunciou com todas as letras – e em tom desafiador – que a era da privacidade havia acabado. Porém, há alguns anos ele vem mudando o tom e o discurso, prometendo que o futuro da rede será focado na privacidade.

Controvérsias envolvem o Facebook há vários anos, como o fato de a plataforma ter classificado como acidental o armazenamento das senhas de e-mail de mais de 1,5 milhão de pessoas em 2019. Na prática, desde 2016, um sistema de verificação solicitava essa informação ao usuário e, segundo o Facebook, “em alguns casos” a senha era armazenada em seu banco de dados “de forma não intencional”.

Sobre isso, Zuckerberg afirmou à época: “Nós não temos a melhor reputação em relação à privacidade neste momento, para dizer o mínimo. Mas estou comprometido a fazer isso direito e a começar um novo capítulo para o nosso produto.”

E eis que um novo capítulo chega por meio das novas regras de privacidade do WhatsApp com compartilhamento de dados entre Facebook, Instagram e Messenger. A partir de maio caberá ao usuário escolher uma de duas decisões: aceitar os termos ou não poder mais utilizar o aplicativo.

Segundo informações do WhatsApp, os dados compartilhados – e que poderão ser comercializados com terceiros – serão: número de celular e dados do registro, como nome completo e CPF, marca e modelo do aparelho, operadora, número de IP (localização da conexão à internet), grupos que o usuário participa, todos os pagamentos e operações financeiras feitos na plataforma, foto de perfil, tempo de uso, todas as atualização de status e vários outros.

Porém, as novas regras não serão implementadas em todo o mundo, pois não foram aceitas pela União Europeia e Reino Unido. Por lá, o compartilhamento de dados só pode ser feito quando é imprescindível para o funcionamento do serviço, o que não se aplica a esse caso.

No Brasil, vários especialistas consideram as novas regras como invasão de privacidade e o Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) declarou que estudará medidas jurídicas e administrativas para que o WhatsApp continue disponível para quem não concordar com a nova política.

O que pouca gente sabe é que, hoje, o simples fato de baixar o aplicativo do Facebook no celular já permite o acesso da empresa a uma série de dados, como todo o histórico de navegação (passado e futuro). Isso porque diversas permissões já vêm habilitadas e cabe ao usuário encontrá-las e modificá-las manualmente, uma a uma.

Ao que tudo indica, das afirmações de Zuckerberg, o “fim da privacidade” é a que mais se enquadra à realidade atual, afinal, ou você compartilha seus dados, ou vai ter de excluir o WhatsApp do seu celular. A boa notícia é que há opções de aplicativos que oferecem um serviço similar com mais privacidade. E a má notícia é que, em breve, todos os outros poderão seguir o mesmo caminho.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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