Análise: ampliação da geração nem-nem e dos desalentados

Para descrever a situação de uma porcentagem importante dos brasileiros se faz necessário até mesmo a criação de novos termos

Gerd Altmann/Pixabay


A expressão geração nem-nem é utilizada para definir jovens que nem estudam e nem trabalham, enquanto o termo desalentado se refere ao desempregado que desistiu de procurar emprego. Reunindo os termos, uma terceira denominação vem surgindo: geração nem-nem-nem, que representa as pessoas que nem estudam, nem trabalham e nem estão buscando colocação no mercado de trabalho.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aproximadamente 11 milhões de pessoas, entre 15 e 29 anos, se enquadram na denominação nem-nem, e mais de 25% dos desalentados estão na faixa dos 18 aos 24 anos. São números impactantes em si mesmos, mas que chegam a ser ainda piores quando nos lembramos que se tratam de pessoas em idade escolar e em início de carreira quando, supostamente, deveria ser uma época de grande motivação.

Um estudo desenvolvido pelo Conselho Nacional da Juventude (Conjuve), apontou que 28% das pessoas (entre 15 e 29 anos) não pretendem retomar os estudos quando escolas e faculdades reabrirem. Outro dado revela que, dos mais de 33 mil jovens que responderam à pesquisa, 50% têm dúvida quanto à prova do Enem. Ou seja, estamos diante de uma população com menos de 30 anos de idade que se mostra cada vez menos interessada, pois nem estuda e nem pretende estudar, nem trabalha e nem pretende trabalhar. Diante disso, será que teremos de criar a expressão “nem4”?

Mas a pergunta é: como uma geração que se diz empoderada e cheia de atitude pode viver sob o cabresto da vitimização? Afinal de contas, só quem se julga vítima da sociedade, do sistema ou seja lá do que for, consegue alcançar esses níveis de desânimo, desesperança e desencorajamento. E é disso que os espertalhões de plantão se alimentam: dependência. O que mais se vê são partidos políticos prometendo resolver os problemas de todo mundo, como se realmente tivessem a intenção de fazê-lo. Porém, é só comparar a situação em que estamos com a quantidade de promessas já feitas para saber que a imensa maioria delas não passou de meras palavras.

Até quando ouviremos discursos empoderados, mas vazios de atitudes? Até quando veremos pessoas jovens, com uma vida inteira pela frente, empacadas e inertes diante de uma sociedade que as vitimiza o tempo todo? E mais: até quando as estatísticas classificarão como “jovens”, pessoas com quase 30 anos de idade? Não que sejam velhos, obviamente, mas não muito tempo atrás, um adulto de 29 anos já tinha batalhado bastante para ter condições de cuidar de si mesmo e, muitas vezes, da própria família. As gerações anteriores foram ensinadas a “se virar”, sem esperar que alguém fizesse isso por elas.

Mas a estratégia da vitimização tem imbecilizado a muitos e atrasado a vida de quem poderia estar bem mais à frente se acreditasse em si mesmo e parasse de depender dos outros. Porém, a “indústria da dependência” lucra alto, logo, quanto mais “clientes”, melhor.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.