Análise: Abra um negócio no Brasil e tenha o pior sócio do mundo

Empreender neste país é ter que, antes de qualquer coisa, lidar com um sócio que, além de não fazer nada em prol do negócio, atrapalha o tempo todo

Empreender no Brasil é um desafio

Empreender no Brasil é um desafio

LUCAS LACAZ RUIZ - 03.08.2020/ESTADÃO CONTEÚDO

Imagine a situação: você trabalha duro, cumpre horário, faz além do que lhe pedem, mas o seu salário não muda. Você percebe que a CLT, que parecia tão interessante para quem trabalha de carteira assinada, não passa de uma falsa sensação de segurança, trazendo apenas benefícios maquiados para que você não perceba que o patrão gasta o dobro para você receber metade.

Então, você decide empreender por conta própria e usar seus talentos a seu favor. Você quer implementar suas próprias ideias e criar um negócio que lhe represente, que tenha a sua cara e que possa gerar empregos.

Você reúne todas as suas energias e investe suas economias em algo que não sabe se vai dar certo e sobre o qual não tem nenhum controle. Porém, a vontade de fazer a diferença e ter um futuro melhor é maior do que o medo de correr os riscos inerentes a todo e qualquer negócio.

Mas, eis que, ao abrir uma empresa neste país, você se depara com a obrigatoriedade de ter um sócio desde o primeiro dia que recebe seu CNPJ. Detalhe: esse sócio regulamentará toda a forma de trabalho, criará normas – muitas vezes sem o menor cabimento – e vigiará o tempo todo se você as cumprirá à risca. O trabalho desse sócio será apenas policiar o que você faz buscando um pequeno deslize para que, diante da sua falha, lhe imponha uma série de penalidades que vão desde multa até a interdição do negócio. Fora isso, todos os meses ele estará lá, para receber a porcentagem que lhe cabe, tenha você tido lucro ou não. O dele é sagrado e não se fala mais nisso.

Você tenta conversar com esse sócio, tenta mostrar que seria melhor focar na qualidade do seu trabalho do que dividir seu tempo em cumprir normas sem pé nem cabeça, e que o tempo e o dinheiro perdidos com todas as regulações podem levar o negócio para o buraco. Mas esse sócio é irredutível e, como você está tentando botar as manguinhas de fora, ele cria mais e mais normas estúpidas para atrapalhar ainda mais o que já não estava fácil. É preciso deixar claro que quem manda no seu negócio, aquele que você investiu todos os seus recursos e trabalha duro todos os dias, não é você.

Agora então, sob a alegação de “salvar vidas”, o seu sócio determina que permitirá a reabertura do seu negócio, aquele mesmo que permaneceu fechado – arcando com todas as despesas como se estivesse aberto – por meses a fio. Mas tem um detalhe: para proteger as pessoas com quem o seu sócio tanto se preocupa, ele determina que você só pode abrir durante um horário reduzido.

Seu sócio aproveita a falta de atenção de seus clientes e vende a ideia de que eles somente estarão seguros no seu estabelecimento dentro de um horário que ele escolheu aleatoriamente. Seus clientes, tão envolvidos pela ideia de que sair de casa é caminhar para a morte, acreditam piamente que, naquele horário permitido pelo seu sócio, estarão livres de contrair qualquer vírus. Porém, para que você não esqueça de quem está no comando, basta passar do horário e seu sócio aparecerá do nada para lembrá-lo de que você está lá para ser feito de bobo, ou melhor, para cumprir as normas.

Foi o que aconteceu com o chef Erick Jacquin, aqui em São Paulo, no último sábado, e com pelo menos outros três estabelecimentos que passaram do horário e terão de arcar com uma multa de mais de R$ 9 mil. Mas como esse sócio é especialista em criar regras estapafúrdias, ele não apenas multou, mas interditou os restaurantes. E quanto à multa, não pense que o pagamento é algo simples, pois sempre há um cálculo para deixar tudo ainda pior. O valor de R$ 9.231,65 tem de ser multiplicado a cada 250 m². Ou seja, quanto maior o seu estabelecimento é, mais cara a multa será. E, claro, os proprietários terão de entrar com uma solicitação de desinterdição na subprefeitura.

Esse sócio, no caso, a prefeitura de São Paulo, anuncia orgulhosamente que 965 estabelecimentos já foram interditados por descumprirem as tais regras de reabertura econômica na cidade que preza tanto pela vida de seus habitantes. E, lembre-se, vidas valem muito mais que empregos e dinheiro, não é mesmo? “A economia se recupera depois”, eles dizem. Aliás, de tanto repetirem isso, há quem creia que eles realmente se preocupam com vidas. Propaganda realmente é a alma do negócio.

Bendita hora que essa pandemia surgiu para alguns, afinal, ela concedeu ainda mais controle ao seu sócio e, apesar de você não saber mais o que fazer para não quebrar, ele continua recebendo religiosamente a sua porcentagem e ainda obteve um poder extra para criar mais regras para controlar e lucrar ainda mais. Que oportunidade de ouro! Governadores e prefeitos adeptos da quarentena eterna estão realmente com a faca e o queijo na mão. Mas tudo isso, claro, é para a sua segurança. Um sócio desses, bicho...

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.