Análise: A problematização crônica do politicamente correto

Apropriação cultural, lugar de fala e patrulhamento do idioma são algumas bandeiras do politicamente correto. Mas seria em nome da justiça?

Gerd Altmann/Pixabay

Os militantes do politicamente correto se definem como defensores de uma sociedade mais justa e tolerante, onde não haja conflitos nem ofensas. Porém, o discurso nada tem a ver com a prática, pois, como sempre, os progressistas buscam avançar sua agenda acusando os outros de fazerem o que eles fazem.

Os exemplos disso são inúmeros, mas vou citar apenas três, correndo o risco de ser taxada de racista, machista e homofóbica. Não tenho problema quanto a isso, afinal, as ofensas que os politicamente corretos afirmam lutar contra é parte integrante de suas ações diárias.

Mas, o que dizer dos ataques violentos por parte de alguns militantes do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) com direito a incêndios, saques, tiroteios e atropelamentos? É absurdo classificar ações dessa natureza – que, inclusive, prejudicaram muitos negros – como protestos antirracistas. Menos ainda compará-las às verdadeiras manifestações por igualdade, como as caminhadas pacíficas – que alcançaram grandes vitórias – lideradas por Martin Luther King. Aliás, por ser branca, não faltarão pessoas para dizerem que não tenho “lugar de fala”, pois é assim que o politicamente correto age: selecionando quem pode falar e quem deve calar. Mas tudo em nome da tolerância e da convivência harmoniosa, claro.

Nesse caso, por ser mulher, será que posso falar sobre a doutrinação do movimento feminista? Uma das edições do reality show de empreendedorismo Shark Tank Brasil teve a participação da empresa Nuwa, um escritório de co-working e clube de conteúdo só para mulheres. Segundo uma das cofundadoras, o futuro deve ter “mais mulheres na posição de poder” mesmo em um “mercado de trabalho que não foi pensado para as mulheres” e sob um “sistema criado” para que a mulher não acesse “suas potências”. O vitimismo de sempre, sem nenhuma inovação, inclusive no que diz respeito ao negócio em si que, diga-se de passagem, não tem a mínima lógica.

Um vídeo postado em uma rede social mostra um “tour” pelo co-working com a seguinte narração: “Esta aqui é a nossa ÚNICA sala que recebe homens. Eles entram pela LATERAL da casa, a gente ACOMPANHA eles. Nossa ideia NÃO É separar, é só ter um espaço SEGURO para as mulheres poderem fortalecer a sua confiança no mercado de trabalho.”

Se essa é uma fala normal, não sei em que mundo estamos vivendo. Quer dizer que para uma mulher estar em uma posição de poder é preciso se refugiar numa casa onde homem não entra pela porta da frente nem circula desacompanhado para que, só assim, ela possa se sentir segura para desenvolver sua confiança? Quer dizer que, fora essa engenharia toda, as mulheres não têm como fazer isso? Nós queremos mesmo um feminismo que desmerece a capacidade feminina dessa maneira? Ora, faça-me o favor!

Para fechar, o estado da Califórnia aprovou uma lei que abranda a pena para os crimes sexuais contra menores de idade desde que cometidos por adultos LGBTQ. A nova legislação propõe que não sejam registrados como agressão sexual, nem pedofilia, os casos em que a vítima tenha entre 14 e 17 anos e que a diferença de idade do autor e da vítima seja inferior a dez anos.

O autor da lei, senador Scott Wiener (partido democrata), afirma que a medida “elimina a discriminação contra os jovens LGBTQ no sistema de justiça criminal.” Para ser politicamente correto é preciso sempre fazer uma coisa absurda parecer algo justo e necessário. Vale lembrar que Wiener também é o responsável por diminuir a pena para quem transmite HIV intencionalmente. Sim, você leu direito: quem transmite HIV intencionalmente. A prática que era crime, agora é apenas contravenção.

Com a problematização de tudo e qualquer coisa, o politicamente correto tem se infiltrado na sociedade trazendo consigo conceitos perigosos que não diferenciam manifestações de ataques, segregação de tolerância e criminosos de vítimas. É preciso que tenhamos discernimento e que jamais venhamos esquecer de que não existe raça, gênero ou opção sexual que coloque quem quer que seja acima do bem e do mal. Não há como haver justiça onde alguns grupos sejam considerados sempre certos enquanto outros sejam considerados sempre errados. Ainda que tentem mudar o sentido das palavras e até mesmo as leis, o errado vai continuar sempre sendo errado para aqueles que querem fazer o certo.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.