Patricia Lages Análise: A nova queima de livros em prol do emburrecimento

Análise: A nova queima de livros em prol do emburrecimento

Não estamos em 1933, quando obras literárias foram queimadas na Alemanha, mas vivemos uma situação parecida em pleno século XXI

Escolas continuam fechadas enquanto cinema e bares já voltaram à atividade

Escolas continuam fechadas enquanto cinema e bares já voltaram à atividade

Reprodução / Freepik

“Bücherverbrennung” é a palavra alemã para queima de livros, mas ao contrário da pronúncia difícil, é bem fácil entender porque o regime nazista destruiu um sem-fim de obras literárias por toda Alemanha. Hitler queria “purificar” a raça ariana e tudo que fosse contrário às suas ideias ditatoriais era considerado nocivo e, portanto, digno de ser destruído.

E qual é o perigo de um livro? Segundo Antônio G. Iturbe, em sua obra primorosa “A Bibliotecária de Auschwitz”, é o efeito que eles causam: “Livros são muito perigosos, eles fazem pensar.” O mesmo se aplica a qualquer meio que leve as pessoas a raciocinar, pois é muito mais difícil subjugar e iludir uma população que pensa. A estratégia “pão e circo” não funciona em uma nação de pessoas esclarecidas.

Com o advento da imprensa, no século VX, por meio da invenção da máquina tipográfica de Gutenberg, houve uma verdadeira revolução no campo das ideias. A difusão da escrita alastrou-se com muito mais rapidez por todo o mundo, fazendo com que um número imensamente maior de pessoas tivesse acesso à instrução, antes limitada a um pequeno grupo de pessoas endinheiradas.

Mais tarde vieram outros meios, como o rádio, a televisão e a internet, ampliando ainda mais o acesso à informação. Diante de tanta facilidade, principalmente com os dispositivos móveis que literalmente carregamos na palma da mão, deveríamos estar testemunhando um aumento nos níveis de inteligência, mas não é isso o que está acontecendo.

Segundo o neurocientista francês Michel Desmurget, pela primeira vez na história, filhos têm QI inferior ao de seus pais. Essa foi a constatação de uma pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Saúde da França, dirigida por Desmurget, e que resultou no livro “A Fábrica de Cretinos Digitais”.

De acordo com o neurocientista, os “nativos digitais” estão sendo privados de linguagem, concentração e memória, habilidades fundamentais para o desenvolvimento da inteligência. Para Desmurget, ainda não é possível determinar o quanto a tecnologia é responsável por esse declínio, porém, diversos estudos mostram que quanto mais televisão e videogame, menor o desenvolvimento cognitivo.

Some-se a isso a perda do ano letivo em muitos países subdesenvolvidos por conta da pandemia. Há quem se espelhe nos Estados Unidos e na Europa para justificar que estados e municípios no Brasil tomaram a decisão certa de manter as escolas fechadas por tanto tempo, porém, a comparação não é equivalente. Enquanto países desenvolvidos têm estrutura para isso, a realidade brasileira é totalmente diferente. Cabe relembrar que o Brasil tem a segunda população mais fora da realidade do mundo, segundo a pesquisa Perigos da Percepção, realizada em 2017, em 38 países. O país que tem a maior percepção da realidade é a Suécia, onde curiosamente não houve quarentena e nem fechamento das escolas – e onde o número de mortes por covid-19 é inferior a seis mil.

Ver escolas fechadas “em prol da vida” enquanto bares, restaurantes e cinemas já voltaram a funcionar dá a impressão de que estamos vivendo uma nova queima de livros, onde o objetivo é afastar as pessoas de qualquer atividade que as faça pensar. E saber que, em várias cidades brasileiras – a exemplo de São Paulo – a maioria dos pais não quer que seus filhos voltem à escola mostra que o medo é realmente capaz de neutralizar o raciocínio. Afinal de contas, as crianças estão nos supermercados, nos parques, nas ruas, nos playgrounds dos condomínios e até batendo de porta em porta para comemorar o Halloween. Por que as escolas se tornaram tão perigosas e a perda de um ano letivo parece algo irrelevante?

É preciso pensar a respeito e não normalizar situações inaceitáveis como essa imposição irracional de controle, onde há lugares e horários permitidos enquanto outros devem ser totalmente evitados sem o menor critério científico. Se o preço da liberdade é a eterna vigilância, o preço da inteligência é não aceitar o emburrecimento.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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