Análise: A maioria das pessoas tem ciência de que inverte valores 

Uma pequena pesquisa extraoficial e sem fins acadêmicos só confirmou o que já se imaginava: as pessoas sabem que estão erradas em relação ao que valorizam, mas...  

Pessoas estão erradas no que valorizam

Uma enquete sobre preços e valores feita despretensiosamente nos stories do meu perfil no Instagram foi vista por 1.869 pessoas que avaliaram uma imagem mostrando seis produtos e seus preços, classificados como baratos ou caros. Apareciam como “baratos” os seguintes itens: iPhone R$ 7 mil, jeans R$ 400 e balada R$ 200. E como “caros” figuravam: curso R$ 1.500, livro R$ 45 e palestra R$ 100.

Canva/Reprodução

A pergunta da enquete era bem simples: “suas prioridades estão certas ou erradas?”. O resultado só surpreende pela franqueza de 62% dos participantes que confessaram valorizar mais os itens que deveriam considerar menos importantes.

No Brasil – embora se trate de um país com um índice de pobreza significativo – o que vale mesmo é o status. Por isso é tão importante estar em uma balada cara, vestindo um jeans de grife e fazendo selfie com o iPhone mais caro do mundo (segundo pesquisa feita pelo Deutsche Bank). Não importa se a conta no banco está no vermelho ou se é preciso dar “caixinha” para o funcionário da companhia de energia não cortar o fornecimento por falta de pagamento.

No país das aparências as pessoas estão mais interessadas em ostentar – mesmo que sua renda não seja compatível – do que em saber se comunicar minimamente bem em seu próprio idioma, aquele mesmo que começam a falar desde que nascem. Aliás, uma das minhas maiores dificuldades para responder às dúvidas que recebo é “decifrar” a escrita das pessoas.

Não me refiro apenas à falta de acentuação e de concordância, nem aos “mim ajuda” ou “eu lir o seu testo mais não entendir”. A questão é que, mesmo relevando esse tipo de erro, e por mais boa vontade que se tenha em ajudar, é um desafio enorme explicar finanças de uma forma que não gere ainda mais dúvidas.

O Brasil tem 230 milhões de smartphones em uso e contabiliza dois dispositivos digitais por pessoa, incluindo computadores, tablets e laptops. Ao mesmo tempo, apresenta um número absurdo e vergonhoso de analfabetos funcionais: 38 milhões de pessoas. Significa que um em cada três brasileiros de 15 a 64 anos tem muita dificuldade em compreender e se comunicar usando letras e números, segundo o Indicador do Analfabetismo Funcional (Inaf).

Esse índice está estagnado há dez anos, enquanto o número de devedores no país também não baixa. Ainda estamos na casa dos 60 milhões de inadimplentes que, em muitos casos, estão nessa situação por terem comprado coisas desnecessárias que não podiam pagar. Mas a verdade é que, enquanto um livro de 45 reais for “caro” e o celular mais caro do mundo for “barato”, continuaremos amargando estatísticas desastrosas.

Patrícia Lages

É jornalista internacional, tendo atuado na Argentina, Inglaterra e Israel. É autora de cinco best-sellers de finanças e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. Ministra cursos e palestras, tendo se apresentado no evento “Success, the only choice” na Universidade Harvard (2014). Na TV, apresenta o quadro "Economia a Dois" na Escola do Amor, Record TV. No YouTube mantém o canal "Patrícia Lages - Dicas de Economia", com vídeos todas as terças e quintas.