Patricia Lages Análise: A imprensa que não informa, apenas milita

Análise: A imprensa que não informa, apenas milita

Há tempos a imprensa deixou de informar para militar, enviesando notícias e criando narrativas de acordo com seus interesses

Imprensa passou a militar em vez de informar

Imprensa passou a militar em vez de informar

Pixabay

O papel básico da imprensa é informar os cidadãos para que estes, por sua vez, tirem suas próprias conclusões sobre os fatos. Para isso, é necessário que se ouçam os dois lados da notícia, que sejam feitas investigações sérias e que, acima de tudo, haja isenção por parte de quem reporta. E, para que isso aconteça, é imprescindível que haja liberdade.

Porém, de informadora do público, a imprensa tem atuado como formadora da opinião pública, enviesando notícias, criando narrativas segundo seus próprios interesses e mostrando apenas um lado dos fatos. E mais: hoje em dia, boa parte da imprensa deixou de informar e passou a militar. Para isso, qualquer notícia serve, mas as que estão “bombando” têm preferência.

Não bastasse a imprensa militar utilizando seus próprios meios, agora também passou a pressionar pessoas públicas a se pronunciarem sobre tudo o que acontece, como Chris Flores fez com Neymar. Em seu programa, a jornalista cobrou do jogador um pronunciamento contra o DJ Ivis, que protagonizou as cenas de violência doméstica que estão correndo o país desde o último fim de semana. Chris cobra Neymar para falar a respeito, pontua que o jogador “dançou a música dele”, inclui uma provocação e, por fim, dá o veredito:

“Ô Neymar, se posiciona! A gente quer te ouvir. Fala, Neymar! A gente quer ouvir todo mundo falando. Todos os artistas que tiveram coragem de se posicionar, parabéns! Tem que se posicionar, sim. Tem que ser contra porque quem não falar nada, assinou embaixo”.

O comentário diz muito sobre como essa imprensa atua: “todo mundo” tem obrigatoriamente que falar sobre tudo; quem fala tem “coragem”, logo, quem não fala é covarde; e quem não disser publicamente que é contra algo, é porque “assina embaixo” do que outra pessoa – seja lá quem for – fez.

Mas é claro que a regra não vale para todos, como é o caso da atriz Juliana Paes que, pela segunda vez, está sendo massacrada nas redes sociais por seus posicionamentos. A primeira ocasião foi quando uma colega de profissão a ofendeu, chamando-a inclusive de criminosa, por não estar militando ativamente em prol do “fique em casa”. E hoje, Juliana foi atacada por chamar a atenção sobre o silêncio que a imprensa está fazendo sobre as manifestações em Cuba, ocorridas no último domingo. Em ambos os casos, a imprensa canhota não a defendeu, não cobrou apoio de outras celebridades e a tão falada sororidade passou longe.

O “tem que ser contra” de Chris Flores fala muito, não apenas em relação a esse caso – que, obviamente, ninguém é a favor – mas sobre como a mídia tem se posicionado: ela processa, defende ou acusa e, por fim, julga. Tempos estranhos.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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