Análise: a hipocrisia não está em quarentena

Celebridades e influenciadores se fecham ainda mais em suas redomas de cristal e vão à internet criticar ferozmente quem está saindo de casa

Há brasileiros que precisam sair de casa para trabalhar

Há brasileiros que precisam sair de casa para trabalhar

REUTERS/Amanda Perobelli - 24.3.2020

Não, eu não estou incentivando ninguém a sair de casa ignorando as recomendações dos órgãos de saúde. O assunto desta análise nem sequer é a pandemia em si, mas sim, a hipocrisia que ronda esse país e que, mais uma vez, reaparece disfarçada de apelo em favor do bem de todos. É muito fácil para alguém que vive em um condomínio de luxo, com vários cômodos bem decorados, geladeira e despensa cheias e conta bancária recheada esbravejar na internet criticando com indignação quem precisa sair para trabalhar.

Segundo o IBGE, 68% dos brasileiros não têm nenhuma reserva financeira, ou seja, se não trabalham, não colocam comida da mesa. Essas pessoas não têm como ficar paradas em suas casas apertadas, com os filhos fora da escola e sem saber o que fazer quando reclamam de fome. Há quem esteja vivendo dias extremamente difíceis por morar de favor na casa de alguém e se sentir um peso ainda maior nestes dias de confinamento.

Há quem esteja se arriscando a sair para tentar faturar algo, pois precisa voltar para casa com algum alimento debaixo do braço para amenizar o desespero dos demais membros da família que ficaram esperando. Pessoas que ficam horas nos pontos de ônibus e que, quando finalmente o transporte chega, está lotado, conforme um dos muitos relatos que temos recebido: “Não tem como ficar parado do jeito que está... Tem gente falando ‘depois recupera’, mas estamos em 2020 e ainda não recuperamos a crise de 2014. Hoje fui trabalhar e o ônibus demorou horrores, foi cheio, do que adianta?”

A vida de muitas pessoas, infelizmente, depende de trabalhar durante o dia para ter algo para jantar à noite. Somos um dos países com maior desigualdade social do mundo, onde 48% da população não tem nem sequer coleta de esgoto, segundo o Instituto Trata Brasil. Diante disso, onde estão as celebridades endinheiradas para demonstrar toda a sua preocupação e amor ao próximo? Ficar em casa gravando videozinhos indignados, gritando que “basta ficar em casa, lavar as mãos e usar álcool gel” é muito fácil, mas não passa de mais uma demonstração de pura hipocrisia. Afinal de contas, vários deles se contaminaram há poucos dias em festas que, até onde sabemos, não são eventos de primeira necessidade, diferentemente de sair para trabalhar e tentar sobreviver a mais uma crise.

Se quisessem mesmo ajudar iriam para as redes usar sua força midiática para cobrar uma posição dos governantes sobre essa vergonha que é o saneamento básico neste país e que causa inúmeras doenças e mortes há décadas. E mais: doariam parte de suas fortunas para levar um pouco de dignidade para quem precisa. Não assistencialismo oportunista, mas soluções reais que o dinheiro pode comprar. É fácil criticar os outros sentadinho no sofá, vestindo roupas de grife da cabeça aos pés. Difícil mesmo é arregaçar as mangas e colocar os pés na lama para ver a realidade de quem carrega esse país nas costas. Em vez de postagens hipócritas do tipo “mais amor, por favor”, que tenhamos menos showzinhos e mais ações.

Patricia Lages

É jornalista internacional, tendo atuado na Argentina, Inglaterra e Israel. É autora de cinco best-sellers de finanças e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. Ministra cursos e palestras, tendo se apresentado no evento “Success, the only choice” na Universidade Harvard (2014). Na TV, apresenta o quadro "Economia a Dois" na Escola do Amor, Record TV. No YouTube mantém o canal "Patricia Lages - Dicas de Economia", com vídeos todas as terças e quintas.