Análise: A felicidade está no que os olhos não veem

Celebridades normalmente são vistas como exemplos de vida perfeita, mas como explicar a felicidade de ontem com o divórcio de hoje e o suicídio de amanhã?

Casamento dos famosos

Casamento dos famosos

Fotos de Reprodução/Instagram e AgNews e Torin Zanette/Divulgação

Roupas caras, mansões deslumbrantes, portas abertas nas baladas mais concorridas, viagens em jatinhos particulares com destino aos lugares mais paradisíacos, hospedagens nos melhores hotéis do planeta e acesso a tudo de melhor que o dinheiro pode comprar. Além disso, as celebridades parecem ter o poder de fazer o tempo parar, pois a qualquer indício de ruga ou marca de expressão, lá estão elas bebendo da “fonte da juventude” nos consultórios dos cirurgiões plásticos mais famosos do mundo.

Suas festas de casamento parecem ter saído dos contos de fadas: muito luxo, pompa e circunstância em castelos, palácios, ilhas particulares, praias fechadas exclusivamente para o evento e uma lista de convidados invejável. Fortunas que alimentariam milhares de pessoas durante meses são gastas para celebrar uniões que, em alguns casos, não chegam a durar semanas.

O mundo dos famosos movimenta bilhões de dólares, pois praticamente toda publicidade gira em torno deles. É preciso que a celebridade de pele perfeita diga que sua beleza vem do creme X, ainda que o produto seja novo no mercado e ela jamais o tenha usado. É como disse Eric Hoffer: “a propaganda não engana as pessoas, apenas ajuda as pessoas a se enganarem”.

Sempre cercadas por multidões que as idolatram como se fossem deuses, os famosos acabam tornando-se pessoas solitárias, mas poucas têm coragem de confessar o que realmente vivem. Esta semana a cantora canadense Alanis Morissette afirmou que a fama pode ser uma "experiência solitária" e que havia descoberto que, ao contrário do que pensava, ser o centro das atenções não fez seu "desconforto desaparecer" e acrescentou:

"Me venderam a mesma declaração de direitos sobre a fama que imagino que todos tenham, de que ela fará com que toda a sua dor suma, que levará seu trauma embora, de que todos te amam e tudo é feito para que haja cura, mas na verdade é uma experiência bastante solitária."

Há toda uma indústria que depende da nossa crença de que aqueles sorrisos perfeitos são de felicidade, de que é preciso se endividar por anos para ter uma festa de casamento de cair o queixo, de que precisamos esculpir nossos corpos com horas e mais horas de academia, tratamentos estéticos e muito suplemento e que, mesmo assim, nunca seremos bons o suficiente.

Pessoas satisfeitas consigo mesmas consomem menos. Vou repetir: pessoas satisfeitas consigo mesmas consomem menos. E o contrário também é válido: pessoas insatisfeitas consigo mesmas consomem mais. É preciso vender a ideia de que você não é feliz o bastante, que sua imagem não é adequada e que você precisa de muito mais coisas de que realmente necessita. Porém, em vez de comprarmos essas ideias, precisamos questionar o que não está sendo mostrado, o que fez aquela celebridade tão idolatrada cometer suicídio e por que aquele casamento tão feliz acabou da noite para o dia.

A verdadeira felicidade está naquilo que os nossos olhos não veem, afinal de contas, pessoas realmente felizes não têm necessidade de demonstrar isso o tempo todo. Todo excesso esconde uma falta e é preciso que não nos esqueçamos disso.