Análise: A era da supervalorização da autoestima

Um dos assuntos em alta é que devemos fazer o que for preciso para manter a nossa autoestima elevada todo o tempo. Mas... por que mesmo?

Treze anos atrás uma amiga havia preparado as paredes do corredor de seu apartamento para fazer um painel de fotos da filha que, na época, tinha três anos de idade. A ideia veio do fato de a menina ser linda desde o nascimento. Não era uma bebê de beleza comum, mas sim, uma daquelas crianças que as pessoas param na rua para admirar e tirar fotos.

Passadas algumas semanas, perguntei sobre o projeto e ela me respondeu com uma pergunta curiosa: “Você acha que eu seria uma mãe estranha se dissesse que não vou mais fazer o painel?” Respondi que não, pois já imaginava o motivo. E acertei.

Autoestima tem sido confundida com autoconfiança

Autoestima tem sido confundida com autoconfiança

Pixabay

A mãe não queria que a filha se achasse melhor do que os outros, pois já era difícil explicar tantos elogios toda vez que saíam de casa, que começavam desde o elevador do prédio e seguiam com as inúmeras abordagens na rua, no shopping, no supermercado. “Seria incentivar autoestima demais”, disse a mãe que, na minha análise, estava certíssima.

Isso porque, considerando a definição de estima como admiração por alguém, autoestima é a admiração de si mesmo e, isso sim, é algo muito estranho.... É claro que devemos nos valorizar no sentido de cuidarmos bem de nós mesmos, mas a autoestima admiração de si próprio, no fundo, não passa de presunção.

Em contrapartida, uma criança que cresce sendo tratada pelos pais como um príncipe ou princesa, ouvindo que merece o mundo inteiro simplesmente porque é um ser especial, provavelmente terá grandes decepções na vida. O mundo não vai dar o mesmo tratamento e nem dizer as mesmas coisas. Não somos todos especiais, caso contrário, a própria palavra perderia o sentido.

A questão é que autoestima tem sido confundida com autoconfiança e, esta última sim, é necessária para fazermos a diferença. Ver alguém presunçoso na minha época de sexta série nos fazia cantar em coro uma música que o Ultraje a Rigor havia acabado de lançar, nos idos de 1984. Aliás, vale recordar um trecho de “Eu me amo” para não esquecermos o quanto essa onda de supervalorização da autoestima pode ser bem esquisita...

“Há tanto tempo eu vinha me procurando
Quanto tempo faz, já nem lembro mais
Sempre correndo atrás de mim feito um louco
Tentando sair desse meu sufoco
Eu era tudo que eu podia querer
Era tão simples e eu custei pra aprender
Daqui pra frente nova vida eu terei
Sempre a meu lado bem feliz eu serei

Eu me amo, eu me amo
Não posso mais viver sem mim...”

Patricia Lages

É jornalista internacional, tendo atuado na Argentina, Inglaterra e Israel. É autora de cinco best-sellers de finanças e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. Ministra cursos e palestras, tendo se apresentado no evento “Success, the only choice” na Universidade Harvard (2014). Na TV, apresenta o quadro "Economia a Dois" na Escola do Amor, Record TV. No YouTube mantém o canal "Patrícia Lages - Dicas de Economia", com vídeos todas as terças e quintas.