Análise: a desvantagem de querer levar vantagem em tudo

Aqueles que querem levar vantagem em tudo são tão cegos que não percebem que ao fazerem os outros afundarem acabarão naufragando junto

Jeitinho brasileiro causa tantos estragos como o coronavírus

Jeitinho brasileiro causa tantos estragos como o coronavírus

Pixabay

O Brasil já vinha sofrendo com o desemprego, os juros altos e a inadimplência, mas as paralisações pela quarentena nos colocaram em um cenário ainda pior. Porém, nem mesmo o novo coronavírus consegue causar tantos estragos no país quanto o famoso jeitinho brasileiro. Vejamos.

Dentre os mais de 64 milhões de inadimplentes há quem se gabe por estar esperando a “dívida caducar” para não pagar. Porém, mal sabem que o que caduca é apenas a negativação do nome após cinco anos e que a dívida não paga não desaparece. Há também os que se gabam por achar que, ao não pagarem, estão dando um golpe no sistema bancário.

Pobres mortais... não têm ideia de que isso entra como perda e é coberto por um seguro que o próprio cliente pagou (e provavelmente nem lembra). Além disso, títulos não pagos geralmente são vendidos para assessorias de cobrança que, em grande parte, não cumprem os requisitos necessários e nem trabalham dentro da lei, mas como infernizam o devedor com ligações ininterruptas, conseguem lucrar alto mesmo com créditos podres.

E quanto ao pequeno empresário que toma calote e não tem a quem recorrer? Ora, a pergunta é: por que, nos dias de hoje, com toda tecnologia de pagamentos e recebimentos que temos, as empresas ainda levam calote? Muitas vezes é porque, para dar um “jeitinho” de não pagar imposto, vendem sem nota fiscal. E como obviamente uma venda informal não tem como ser formalmente cobrada, vem o prejuízo. O mesmo acontece com quem quer “dar uma volta” nas taxas de recebimento com cartão. Para não pagar os cerca de 3,6% de taxa de crédito e de 1% na venda no débito, preferem arriscar 100% da venda. O jeitinho brasileiro custa caro, mas parece que muita gente ainda não fez as contas.

O número de pessoas capazes de assinar um contrato sem ler é estarrecedor. Isso faz com que milhões de pessoas entrem em altas roubadas das quais simplesmente não conseguem sair. Não somos apenas o país do analfabetismo funcional, onde as pessoas leem e não entendem. Somos também a nação das pessoas que sabem ler, mas morrem de preguiça. Pessoas que podem andar com as próprias pernas, mas preferem circular em cadeiras de rodas tendo alguém que as empurre. E, em vez de sentirem-se estúpidas, sentem-se as criaturas mais espertas do mundo por não estarem fazendo esforço algum.

Mas as desvantagens de querer levar vantagem em tudo não param por aí. O que dizer da corrida dos “espertos” aos supermercados para garantir despensa e geladeira abarrotadas? São pessoas que se acham em um nível tão superior que não param nem por um minuto para pensar que estão contribuindo para o aumento dos preços que estamos enfrentando.

Em vez de fazer o esforço necessário para afiar seu próprio machado quando fica embotado, os espertalhões preferem dar um jeitinho de fazer alguém cortar sua lenha, sem saber que, no fim das contas, pagarão muito mais caro e só receberão cavacos.