Patricia Lages Análise: A corrupção começa de baixo para cima

Análise: A corrupção começa de baixo para cima

Brasileiro reclama de corrupção na política, mas vota em candidato que distribui santinho em boca de urna e vende voto a troco de migalha

Corrupção

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Prova de que a corrupção começa pelo povo e não pelos políticos é que nós somos os responsáveis por coloca-los lá. Cada brasileiro que deixa para escolher o candidato no último instante, pegando santinho na calçada da escola, promove a vitória de um criminoso. Sim, criminoso, pois se alguém nesse país ainda não sabe, boca de urna é crime eleitoral.

Talvez, se as pessoas soubessem que o eleitor que faz boca de urna pode ser detido e ter de pagar uma multa, as coisas seriam um pouco diferentes. O fato é que até a fiscalização faz vista grossa para algo tão “normal”, reforçando o conceito de que não há corruptor sem que haja alguém disposto a ser corrompido e sem que outros tantos não liguem a mínima.

Esta manhã vi uma senhora aproveitando o movimento das pessoas em uma grande avenida para distribuir material de um vereador que nem ela sabia quem era. Segundo ela, aquele havia sido um ótimo negócio, pois lhe “deram” R$ 50 “só para entregar uns papeizinhos”, enquanto ela precisa fazer faxina um dia inteiro para receber R$ 120.

Pior que isso foi ver as pessoas aceitando o santinho com a justificativa de que estavam “ajudando a coitadinha a ganhar o dinheirinho dela”. O brasileiro é assim: admira a disciplina, a ordem e a justiça de outros povos, enquanto cobra dos políticos que dirijam este país para o primeiro mundo. Porém, não perde nenhuma oportunidade de agir em prol do atraso e do retrocesso. Por aqui, tudo bem cometer um crime se que quem o executa tem “justificativas” para isso.

Às 7h da manhã, o Ministério da Justiça divulgou a ocorrência de 17 casos de boca de urna, mas apenas duas horas depois, o número já havia saltado para 56, mais que o triplo. Além disso, foram flagradas mais de 60 tentativas de compra de votos, segundo boletim divulgado às 9h.

E quem pensa que essa prática só ocorre em áreas remotas e entre pessoas menos instruídas, engana-se redondamente. O que ocorre é que, em algumas regiões, o preço é baixo: saco de cimento, dentadura, furar a fila do SUS. Nas capitais a negociação é a mesma, apenas com valores diferentes: liberar Habite-se para construção irregular, “quebra” de multas, vaga para o filho na universidade.

E assim, a cada eleição, o brasileiro vê a “grande oportunidade” de mendigar um favor que, caso tivesse consciência e responsabilidade cívica, jamais precisaria. Esse tipo de político sujo que só é eleito e reeleito porque há eleitores que tão corruptos quanto eles. Infelizmente não são poucas as pessoas que não levam as eleições a sério e ainda trocam um direito conquistado a duras penas por um insignificante prato de lentilhas. Mudar crenças é muito mais desafiador do que mudar hábitos, portanto, ainda há muito trabalho pela frente. Em vez de cobrar mudança é preciso primeiramente mudar.

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