Análise: A bandidolatria da mídia brasileira

Toda mídia tem seu grau de parcialidade, mas a minimização de ações criminosas e o culto aos bandidos não podem ser aceitos

Glorificação da bandidagem está em alta na mídia brasileira

Glorificação da bandidagem está em alta na mídia brasileira

Pixabay

A quantidade de exemplos que poderiam ser citados nesta análise é tão extensa que tive de me limitar apenas a um dos acontecimentos mais recentes para expor meu ponto. Não tive estômago para escrever sobre o repórter Alexandre Henderson, da TV Globo, que se emocionou, ao vivo, com a morte de um bandido em uma tentativa frustrada de roubo de carga no Rio de Janeiro, no último dia 14.

Mas só para dar uma pincelada, Henderson narrou o fato da seguinte forma: “A gente fica triste porque, querendo ou não, é um ser humano que morreu. Não cabe à gente, eu que sou jornalista, julgar. Inclusive, me doeu ver a família desse bandido chorando aqui. A gente fica consternado porque, segundo a polícia, eles chegaram aqui e, quando deram de cara com o corpo, houve uma comoção muito grande. ”

Ou seja, dane-se o motorista desarmado que poderia ter sido morto pelos quatro bandidos (três fugiram). Dane-se a consternação e a comoção da família de quem podia ter perdido a vida trabalhando honestamente para levar o pão para casa. Danem-se os policiais que também poderiam ter morrido na troca de tiros. O que importa é lamentar a morte de um bandido que, deliberadamente, assumiu o risco ao se envolver em uma atividade criminosa. 

Mas o fato é que, aos pouquinhos – e ao longo de vários anos – reportagens minimizando o crime e vitimizando bandidos foram sendo produzidas pela mídia brasileira de forma sutil, para que o telespectador não percebesse a normalização da criminalidade. Agora, porém, esse posicionamento está mais escancarado do que nunca.

MANIPULAÇÃO SILENCIOSA

Antes de tudo, jornalistas trabalham com a palavra e faz parte da rotina de qualquer profissional escolher os termos que darão o tom de todo e qualquer texto. Ao utilizar expressões difíceis em textos densos, parte da mídia brasileira afastou o interesse da população pela leitura, afinal de contas, se não compreendemos algo, acabamos deixando de lado.

Com o advento da internet, onde tudo precisa ser feito em altíssima velocidade em detrimento da qualidade (e até da verdade), criou-se uma cultura de “leitores de manchete”, que apenas supõe o teor da matéria sem nem ao menos se dar ao trabalho de ler.

O saldo dessa operação é extremamente negativo para o leitor, ao mesmo tempo que é altamente positivo para a imprensa tendenciosa. Isso porque, enquanto o leitor supõe por conta própria, a mídia se exime de qualquer culpa.

Mas, como eu disse, o posicionamento pró-bandidagem de parte da velha mídia está mais escancarado do que nunca. Veja a escolha de palavras para a manchete de uma matéria do G1, publicada no último dia 17.

“Famílias ligadas a movimento social ocupam supermercado de Natal e exigem doação de cestas básicas – Caso acontece na manhã deste sábado (17) no bairro Alecrim, na Zona Leste da cidade. Polícia Militar acompanha negociação”

Não é à toa que as palavras “família”, “movimento social”, “doação” e “negociação” foram utilizadas. Porém, o que ocorreu em Natal foi uma invasão premeditada a um supermercado por cerca de 200 manifestantes esquerdistas do Movimento de Luta dos Bairros e Favelas (MLB). Todos vestiam vermelho e ameaçavam vandalizar o local, caso não saíssem dali com tudo o que quisessem levar, obviamente, sem pagar. Para conter os manifestantes e garantir a segurança dos clientes, a polícia militar teve de ser acionada.

O QUE DIZ A LEI

Segundo o Art. 157 do Código Penal roubo é “subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência”.

Quando isso é feito sob ameaça de um grupo de 200 pessoas em um local sem condição de resistência é nada mais, nada menos, do que a ação de uma quadrilha. O Art. 288 do Código Penal é bem claro quando configura formação de quadrilha: “associarem-se mais de três pessoas, em quadrilha ou bando, para o fim de cometer crimes".

Por outro lado, a manchete da matéria tira totalmente o foco do que aconteceu de fato, nesse caso, o crime de roubo. E o que vem a ser “exigem doação”? Desde quando doações podem ser exigidas à força? Perceba a manipulação das palavras na tentativa de dar sentido a algo totalmente absurdo. A natureza de qualquer doação está diretamente ligada à livre e espontânea vontade, ou seja, uma vez que haja coação, exigência ou qualquer tipo de constrangimento ou ameaça, deixa de ser uma doação para se tornar extorsão, roubo, crime.

Ao longo da matéria, o veículo continua apoiando a liderança da quadrilha, a quem chama de “coordenação do movimento”, dizendo que a ação é um “protesto contra a fome e a carestia” e que a Polícia Militar estava ali apenas para acompanhar a “negociação entre as partes”. Mas, desde quando é papel da Polícia negociar roubos? Em que mundo alguns jornalistas estão vivendo?

Coerência zero e a institucionalização do crime

Analisando as fotos da invasão, os manifestantes não parecem vítimas de fome, afinal, muitos deles estão visivelmente com sobrepeso, além de estarem rindo com seus celulares em punho. Em momento algum alguém protestou contra “carestia”, pois a demanda não era por preços mais baixos, mas sim, por “levar” produtos de graça.

Para a Federação do Comércio do Rio Grande do Norte (Fecomércio RN), o ato foi uma invasão. Em nota, a entidade espera que “as forças de segurança pública e as autoridades em geral adotem medidas cabíveis, a fim de coibir imediatamente esse tipo de iniciativa”. A Fecomércio também afirma que é “necessário um ambiente de segurança e respeito ao direito de propriedade, protegido constitucionalmente, para que os empreendedores possam manter suas atividades e investimentos com tranquilidade e segurança jurídica”.

O que ocorreu em Natal não foi uma ação pontual, mas sim, um crime de proporções muito maiores, pois outras invasões ocorreram em outras localidades – como no Distrito Federal – da mesma forma e no mesmo dia e horário.

Esta não é uma notícia para ser lida e esquecida e a razão é muito simples: todos estamos em perigo quando o roubo passa a ser chamado de “exigência de doação”, quando criminosos são classificados como “famílias” e quadrilhas são tidas como “movimentos sociais”.

Pare por um minuto e imagine-se em um supermercado com a sua família  quando, de repente, um grupo de duas centenas de pessoas invade o local, promove um tumulto e exige “levar de graça” os produtos que você trabalhou duro para comprar.

Não podemos permitir a minimização da violência, pois o passo seguinte será a institucionalização do crime.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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