Patricia Lages Análise: 30% das famílias mais pobres passam fome na pandemia

Análise: 30% das famílias mais pobres passam fome na pandemia

A diminuição de renda entre famílias com crianças e adolescentes atingiu 61% e a fome invadiu as casas dos mais pobres

Frantisek Krejci/Pixabay

Devido à pandemia do novo coronavírus, 30% dos lares brasileiros mais pobres – das classes D e E – ficaram sem ter o que comer em algum momento de julho a novembro, enquanto a renda de 61% das famílias com crianças e adolescentes despencou, causando o que a pesquisa chama de “insegurança alimentar”.

Os dados são do estudo “Impactos Primários e Secundários da Covid-19 em Crianças e Adolescentes” desenvolvido pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em parceria com o Ibope Inteligência, e revelam que os efeitos da pandemia se tornaram ainda mais severos no segundo semestre.

Em resumo, 15% das famílias mais pobres perderam 100% da renda, enquanto 7 de cada 10 brasileiros cuja renda era de um salário mínimo, estão tendo que sobreviver com menos do que isso. Sem poderem mandar seus filhos para a escola, a merenda que, muitas vezes era a única refeição do dia, faz muita falta.

Além disso, o afastamento das atividades escolares afeta em cheio a saúde mental de crianças e adolescentes. O estudo afirma que em mais da metade das famílias (54%) os filhos adolescentes apresentaram algum problema relacionado à saúde mental. Florence Bauer, representante do Unicef no Brasil, alerta que o fechamento das instituições de ensino representa “um risco de os estudantes perderem o vínculo com a escola, agravando a exclusão, e reforça a urgência de reabrir as escolas.”

A pesquisa “ConVid Comportamentos”, desenvolvida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Unicamp e UFMG, revela um cenário desfavorável, onde 34% dos fumantes aumentaram o consumo de cigarros diários e cerca de 18% passaram a consumir mais álcool. Apenas 12,6% das pessoas que realizavam atividades físicas mantiveram a rotina de exercícios, enquanto o número de horas em frente a alguma tela (TV, computador e tablet) aumentou consideravelmente.

Mais vícios, mais problemas mentais e mais tempo de exposição a notícias que, em grande parte, mais manipulam do que informam. Em contrapartida, menos dinheiro – ou a total falta dele – menos atividade física, menos saúde, menos comida na mesa. Esses dados só são novidade para a turminha do #fiqueemcasa que não deixa de postar nas redes sociais a chegada dos seus pedidos via ifood e mostrar como se tornaram hábeis em “desinfetar” as embalagens antes de degustarem suas refeições.

A quarentena sem fim para “salvar vidas” está adoecendo um número cada vez maior de pessoas e, segundo levantamentos da Organização das Nações Unidas (ONU), matará de fome muito mais gente do que a Covid-19. E quem ainda acredita que tudo isso é em prol da vida seria ótimo #sairdecasa e ver com os próprios olhos o que está acontecendo no mundo real.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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