Lifestyle O que os festivais ainda precisam aprender sobre acessibilidade

O que os festivais ainda precisam aprender sobre acessibilidade

Repórter do R7, que tem paralisia cerebral e anda com muletas, foi ao Rock in Rio e comprova falhas na inclusão de pessoas com deficiência

O que os festivais ainda precisam aprender sobre acessibilidade

2 horas para conseguir um triciclo

2 horas para conseguir um triciclo

Arquivo pessoal

Uma garoa fina caía do céu nublado quando cheguei à Cidade do Rock, no Parque Olímpico do Rio de Janeiro, no domingo, 29 de setembro. Eu estava acompanhada da minha amiga Nayara, que também é repórter, e do namorado dela, Luis.

Uma mulher nos guiou na entrada e me levou até a catraca para pessoas preferenciais. Quando passei, outra funcionária veio ao meu encontro e perguntou se eu queria um carro de golfe para me levar adiante.

Respondi que sim. "Evitem andar o máximo que vocês puderem, aqui é muito grande e cansa", aconselhou. Pelo rádio, ela solicitou que alguém trouxesse o veículo, mas, após 20 minutos de espera e conversas confusas que ouvi no rádio, resolvi ir a pé.

Nayara e Luis foram pela escadaria — assim como a maioria das pessoas. Eu fui por um atalho indicado por um segurança. Fomos parar perto do palco onde havia um show de música eletrônica. Lá tinha uma plataforma para uso exclusivo de PCDs (pessoas com deficiência), mas estava muito afastada do palco, numa situação de lotação, seria muito difícil assistir ao show daquela distância.

Nós queríamos chegar até o estande dedicado à acessibilidade para que eu pudesse pegar um triciclo motorizado, mas demoramos para achar alguém da equipe de apoio que soubesse explicar o caminho. O homem que nos orientou disse que o estande estava longe: "Tira uma foto dela e leva até lá para ver se eles liberam o kit", sugeriu, se referindo a mim. Luis tirou uma foto minha de pé, com as muletas, mas não foi suficiente, disseram que eu precisava ir pessoalmente - e deram uma cadeira de rodas para ajudar no trajeto.

Sobre a localização, Thiago Amaral, responsável pela acessibilidade do evento, informa que “o centro de serviços PCD, patrocinado por Doritos, está em um ponto estratégico de fácil acesso de chegada e saída para uma possível emergência, sendo um dos primeiros stands oficiais Rock in Rio após a entrada da ‘Cidade do Rock’”.

Quando cheguei ao espaço, duas pessoas estavam na minha frente à espera de um triciclo. Um jovem cadeirante contou que na sexta-feira (27) tinha ido ao festival, mas não sabia da possibilidade de pegar o triciclo emprestado, por isso passou quase todo o evento se locomovendo com sua própria cadeira - que exige esforço para mover as rodas, já que não é motorizada.

Quanto a mim, consegui o último triciclo disponível porque a outra pessoa que chegou antes de mim desistiu de usá-lo. Um funcionário do evento me informou que havia 60 cadeiras para pessoas com deficiência – normais e motorizadas. De acordo com Thiago, a quantidade foi estipulada com base na demanda de 2017 e, na segunda semana do festival, serão disponibilizadas 85 cadeiras.


Entre a minha chegada à cidade do rock até conseguir o triciclo, duas horas se passaram. Fiquei com medo de perder o show da Elza Soares, mas, já motorizada, cheguei ao palco Sunset a tempo de ouvir ela dizer: "Mulheres, gemer só de prazer". Não vi intérpretes de Libras durante o show. Mas a organização do evento diz que esses profissionais ficam nas plataformas dos palcos Mundo e Sunset, que atraem maior público do evento e podem ser deslocados de acordo com a solicitação das pessoas.

Comecei a curtir realmente o festival depois que peguei o triciclo. Entrei com ele nos banheiros acessíveis e no Gourmet Square, o espaço gastronômico do evento. A moça que me guiou lá dentro pediu, inclusive, para pessoas aleatórias que estavam ocupando uma mesa preferencial se retirarem. Entretanto, não comi nada, pois o ambiente era acessível, mas os preços não.

Notei a ausência do piso tátil pelos lugares por onde passei. Sobre essa questão, Thiago esclarece que foram instalados pisos de alerta em degraus e rampas. Os mapas táteis foram colocados em pontos estratégicos, como entrada principal e centro de serviços PCD. Além disso, o evento oferece um serviço inédito de localização via aplicativo, pelo qual a pessoa com deficiência visual recebe informações por áudio sobre o local onde ela está, inclusive com descrição de algumas estruturas físicas da Cidade do Rock.

Na hora de ir embora, estava garoando de novo. Devolvi o triciclo e, então, tive que andar por uma longa distância e descer uma escada igualmente longa até chegar ao carrinho de golfe que nos levou até a saída do parque.

Apesar dos perrengues e da espera que parecia interminável, a experiência memorável na companhia de amigos valeu a pena.