Lifestyle O filho que não chegou: o luto de quem vive um aborto espontâneo

O filho que não chegou: o luto de quem vive um aborto espontâneo

A cada cinco gestações, uma resulta em óbito fetal. No entanto, sentimento de perda das mulheres ainda é deslegitimado

Aborto espontâneo ocorre em 20% das gestações, mas luto ainda é tabu

Aborto espontâneo ocorre em 20% das gestações, mas luto ainda é tabu

Pixabay

"Me senti um cemitério ambulante". Foi assim que a advogada Edna Costa, de 45 anos, definiu o luto que vivenciou após quatro abortos espontâneos. Do primeiro óbito fetal – experiência comum para 20% das gestações – até o nascimento do filho Pedro, hoje com quatro anos de idade, ela revela que enfrentava uma sensação de culpa e incapacidade.

“A primeira vez que engravidei tinha 15 anos, aquela coisa típica de garota de periferia. O choque foi tão grande que descobri a gestação em uma sexta-feira e perdi na segunda", conta. "Depois da curetagem, me colocaram em um quarto com todas as mães que tinham acabado de ter filhos. Me senti péssima, parecia que era algo normal para toda a mulher enquanto eu era incapaz. Parece que seu organismo não serve para aquilo."

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De acordo com a ginecologista e obstetra Vanessa Dalprá, a sensação de culpa vivenciada por Edna é frequente na maioria das mulheres que atende em seu consultório. “Quase todas as mulheres se sentem expostas e incapazes de gerar um filho, especialmente quando se trata da primeira gestação”.

A obstetra, no entanto, explica que o aborto espontâneo nada tem a ver com a capacidade da mulher. "É algo que ocorre em uma a cada cinco gestações. Isso difere em relação à idade, mas acontece justamente pela qualidade do embrião. Se a junção entre espermatozoide e óvulo não for ideal, o próprio corpo da mulher expulsa."

O psiquiatra Henrique Bottura, da Clínica Psiquiatria Paulista, explica de onde vem o sentimento de culpa feminino. “Existe uma questão cultural que denota o quanto é atribuído à mulher a responsabilidade na condução da gravidez, embora grande parte dos abortos ocorra por uma questão de inviabilidade genética.”

"Quando uma concepção é feita, várias coisas acontecem na cabeça da família. São vários projetos para aquela potencial vida e você cria uma série de anseios para ela."

Foi o que aconteceu com Edna. Após a quarta gestação interrompida, o sentimento de revolta era com a indiferença dos profissionais de saúde e das pessoas que a cercavam. “É como se não fosse nada. Eu gostaria que as pessoas entendessem que a mulher que está passando por isso está perdendo um filho. Elas precisam ver isso com mais humanidade”, desabafa a advogada, que reforça a indignação que sentia quando ouvia a frase de suposto conforto "Deus sabe o que faz". "Era como se dissessem que fui feita incapaz", diz.

Entendendo o luto

Segundo Bottura, um dos fatores que mais afetam a mulher que passa por um aborto espontâneo é a incompreensão do luto. “Existe uma conexão muito profunda da mãe com o projeto de vida e é muito difícil para as pessoas entenderem a dor. Elas já têm tendência a desqualificar dores emocionais alheias, e nesse caso a perda é encarada como se fosse apenas um embrião, é mais difícil entender a profundidade da conexão emocional."

Paro o profissional, a melhor postura é evitar deslegitimar o luto da mulher.
“É um processo vivencial de desligamento, então entender e aceitar a realidade é o primeiro passo. É basicamente se aproximar, acolher, expressar amorosidade e permitir que ela expresse a dor”, conclui.