O Dia dos Namorados de dois casais separados pela quarentena

Programação romântica para a data foi substituída por chamadas de vídeo para diminuir os riscos de contrair a covid-19

Giovanna Caminha e João Paulo Oliveira são da mesma sala na faculdade

Giovanna Caminha e João Paulo Oliveira são da mesma sala na faculdade

Arquivo pessoal

Não vai ter jantar à luz de velas, mas vai ter Netflix Party. É assim que Giovanna Caminha, 21 anos, e João Paulo Oliveira, 22 anos, vão comemorar o Dia dos Namorados este ano: assistindo juntos, mas em casas separadas, à série favorita do casal.

Giovanna e João Paulo só se veem por chamada de vídeo desde o dia 21 de março por causa da pandemia da covid-19. Para amenizar a saudade, costumam mandar lembrancinhas um para o outro. "A gente gosta muito de comer. Então sempre nos mandamos brownies ou algum outro mimo", conta João Paulo.

Para eles, a distância foi um baque ainda maior do que para a maioria dos casais. Há quatro anos, quando iniciaram o curso de Relações Internacionais na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo, estudam na mesma sala. "Comecei a namorar com ele no fim do 2º semestre da faculdade. Ele é uma pessoa muito boa, então a gente se aproximou e a amizade foi virando algo a mais", lembra Giovanna.

O primeiro beijo do casal aconteceu nas férias, após fim do 1º semestre, em uma festa da faculdade. "A partir desse dia, continuamos ‘ficando’ em festas. Sabia que estava rolando um sentimento, mas aí um dia ele me mandou um áudio se declarando. Foi um choque", relembra Giovanna.

João Paulo conta que, a princípio, não foi correspondido. "Ela ficou muito surpresa com o áudio. Acho que ela também sentia algo especial, mas não demonstrou no momento."

Meses depois, eles engataram um relacionamento – e desde então, não se desgrudaram. Além de estudarem na mesma sala, o casal também trabalhava no mesmo bairro na capital paulista. "Eu trabalhava na Lapa, e ele também. Então a gente se via todo dia, toda hora. A gente não ia junto para o trabalho, mas eu sempre ia buscá-lo para irmos juntos para a faculdade", relata Giovanna.

“Sinto falta de ver, abraçar e sentir”
João Paulo, namorado de Giovanna

Eles contam que a distância pesou no início da quarentena, mas que já se acostumaram. "No começo foi muito difícil, porque era muita convivência. Foi complicado lidar com isso, mas hoje em dia estamos super bem", afirma Giovanna.

João Paulo compartilha do mesmo sentimento. "Para mim foi muito difícil no início. Tem sido ainda, mas acho que a gente conseguiu se acostumar um pouco devido a outros meios de se ver, como videoconferência ou ligação. Mas, ainda assim, é bastante difícil. Sinto bastante falta de vê-la pessoalmente."

Eles acreditam que a distância os deixou mais maduros em relação ao relacionamento. "Mudou muito nessa questão de compreender o outro. Às vezes, a pessoa demora para responder e você fica pensando 'por que isso está acontecendo?'. Na quarentena, eu aprendi que não vale a pena brigar por esse tipo de coisa", diz Giovanna.

"Quando a gente se via todo dia, qualquer empecilho ou desencontro era motivo de discussão", conta João Paulo. "Talvez a gente não percebesse o quanto cada momento realmente valia a pena."

Para eles, a maior dificuldade de um relacionamento à distância é a falta de contato físico. "Sinto falta de ver, abraçar e sentir", relata João Paulo. "A gente é muito parceiro de todas as horas, então estar junto faz falta. Antes da pandemia, ele vinha em casa até quando eu estava ocupada, só para ficar aqui comigo", afirma Giovanna.

Para compensar o "atraso", o casal faz muitos planos para depois que a pandemia passar. "A gente sempre inventa alguma viagem. Quando tudo isso acabar, a gente pensa em fazer alguma coisa bem doida, tipo alugar uma kombi e viajar pelo Nordeste para ver se desestressa desse período (risos)", diz Giovanna.

Eles acreditam que a quarentena fará com que as pessoas valorizem mais os momentos com as pessoas que amam. "Quando a gente está na correria do cotidiano, talvez não dê tanta importância para um abraço, um beijo, uma despedida. Espero que a quarentena traga essa consciência sobre esses pequenos momentos. Para mim, trouxe", diz Giovana. "As pessoas vão abrir os olhos para quem realmente importa – tanto no amor quanto na amizade", afirma João Paulo.

Separados pela Serra do Mar

Regina Baron, 55 anos, e seu companheiro João Paulo Baptista, 65 anos, não se veem desde o dia 14 de março. Ao contrário de Giovanna e João Paulo, eles não se encontravam com tanta frequência, pois moram em cidades diferentes – ela em São Paulo e ele em Santos.

Regina e "Ba", como ela o chama, se conheceram há mais de 30 anos, quando trabalhavam juntos em uma agência de publicidade. Ambos tinham profunda admiração um pelo outro, sentimento que anos depois resultaria em uma paixão intensa.

Regina e João se conhecem há mais de 30 anos

Regina e João se conhecem há mais de 30 anos

Arquivo pessoal

"Ele sempre foi muito inteligente, agradável, simpático, tocava violão, aquelas coisas, mas não sentia nada além disso por ele", conta Regina. "Sempre admirei a Regina por ela ser uma mulher firme, talentosa, divertida e super competente", relata João.

Embora trabalhassem na mesma área, a vida levou os dois para caminhos diferentes. Mais de 27 anos depois, Regina chamou João em uma rede social para contar que o neto de uma amiga em comum tinha nascido.

A partir daquele dia, eles começaram a conversar e um dia Baptista a convidou para passar o final de semana em seu apartamento em Santos. "Me deu um nervoso, um frio na barriga, mas fui e foi muito legal. A gente se apaixonou. Foi muito lindo esse reencontro", lembra Regina.

"Assim que voltei para São Paulo, mandei uma mensagem dizendo que estava apaixonada por ele, que o amava e que ele era a pessoa com quem eu queria ficar para o resto da minha vida. A maturidade fez com que eu perdesse o medo de me expor e de falar as coisas que tenho vontade. Eu não tenho mais tanto tempo. Não vou ficar esperando seis meses para falar para o rapaz que estou gostando dele (risos)", diz Regina. Os dois estão juntos desde então.

Apesar de morarem em cidades diferentes, eles se viam pelo menos uma vez por semana. Nos últimos três meses, a única comunicação do casal tem sido pelo celular. "A gente se fala todos os dias por telefone. Às vezes, fazemos chamada de vídeo, mas não é sempre. Eu quero estar bonita, né! Mas quando a gente faz, é muito bom, porque a gente se vê, mesmo que seja através da tela do celular", conta Regina.

'Sinto falta do olho no olho'
Regina, namorada de João

Os dois pretendem comemorar o Dia dos Namorados por ligação ou chamada de vídeo. "É o que nos resta", brinca Regina.

Para eles, assim como para Giovanna e João Paulo, a falta de contato físico tem sido a maior dificuldade do relacionamento durante a pandemia da covid-19. "Sinto falta do olho no olho, de ficar de mãos dadas, do afeto, do toque. Não que não tenha afeto nas atuais circunstâncias, mas é diferente", conta Regina. "Eu tinha a liberdade de falar 'ah, vou para São Paulo'. Saía de manhã, pegava uma troca de roupa e ia. Hoje não tenho mais essa liberdade", completa João.

Regina diz que a quarentena não mudou a forma como ela enxerga o relacionamento, mas reforçou algumas questões. "Percebi ainda mais que ele é, de fato, o homem da minha vida."

Eles não fazem planos para depois que a pandemia passar. "O plano é não ter plano nenhum. É ficar junto", afirma Regina. "Queria que a gente passasse uma semana juntos em algum lugar. Mas ainda nem falei com ela porque é algo que não tem prazo, né", diz João.

Regina acredita que os relacionamentos tendem a ficar mais "delicados" na era pós-pandemia. "Eu não sinto falta de jantar em um super restaurante ou de fazer uma super viagem. Eu quero olhar no olho, ficar de mão dada, conversar. Então eu acho que as relações tendem a ficar mais delicadas, no sentido de as pessoas se perceberem mais e entenderem que essas coisas tão bobas de que a gente sente falta no dia a dia não são bobas – são de fato, importantes, para manter um bom relacionamento."

João concorda. Para ele, a quarentena é um período de reflexão. "Já dizia o filósofo José Ortega y Gasset, 'o homem é o homem e a sua circunstância'. Se a circunstância muda, você muda também. As pessoas permanecerão as mesmas na essência, mas poderão vir a rever algumas atitudes."

*Estagiária do R7 sob supervisão de Pablo Marques