'Meu marido não é herói': romance de pessoas deficientes ainda é tabu

No Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, estilista, atriz, consultora e bióloga defendem que sua vida afetiva também seja naturalizada

Montagem de fotos com Tatiana Contri. Ela aparece abraçada ao marido em uma das imagens. Na outra, sentada em sua cadeira de rodas com o filho no colo em uma faixa de pedestre

Montagem de fotos com Tatiana Contri. Ela aparece abraçada ao marido em uma das imagens. Na outra, sentada em sua cadeira de rodas com o filho no colo em uma faixa de pedestre

Arquivo Pessoal

'Sextar' com os amigos, flertar, ir ao cinema com o namorado ou dar uma baita festa de casamento podem ser situações comuns na vida de qualquer pessoa, inclusive de quem tem deficiência. De acordo com o IBGE, o Brasil tem 45 milhões de pessoas que convivem com algum tipo de deficiência. No entanto, a falta de acessibilidade nos espaços públicos e representatividade na mídia varrem a normalidade dos sonhos e ambições cotidianas para debaixo do tapete. É o que aponta Michele Simões, idealizadora do projeto 'Meu Corpo é Real' e do mini documentário 'Amor Fati', lançado nesta terça-feira (3) em parceria com em parceria com Sofia Stipkovic, que discute a vida afetiva de mulheres com deficiência.

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Modelo do projeto 'Amor Fati' aparece sentada no chão, com a perna direita com uma prótese de ferro esticada e a perna esquerda dobrada, com o pé encostado na coxa direita.

Modelo do projeto 'Amor Fati' aparece sentada no chão, com a perna direita com uma prótese de ferro esticada e a perna esquerda dobrada, com o pé encostado na coxa direita.

Dário Matos

"A pessoa com deficiência sequer é vista como pessoa. É como se a pessoa não pudesse ser bonita, desejável. A gente precisa desmistificar e tirar esse rótulo. Cada pessoa tem sua história. É muito comum se espantarem em ver um casal onde uma das pessoas não tem deficiência. Por que se espantar? Por que o amor não é visto?", questiona Michele, que ficou paraplégica após um acidente de carro em 2006. 

Espanto é a reação que a atriz Tabata Contri vivencia quase todos os dias ao lado do marido. Aos 39 anos, Tabata é casada, mãe de um filho de três e cadeirante desde os 19. Tabata trabalha com inclusão para pessoas com deficiência no mercado de trabalho, viaja por todo o Brasil prestando consultoria de diversidade em empresas, mas tem de lidar com olhares de estranhamento alheios por levar uma vida semelhante a de seus amigos e familiares. 

"Fico irritada quando parabenizam meu marido por estar comigo. As pessoas ainda têm uma percepção muito capacitista, de subestimar ou superestimar. Quando alguém me acha uma super heroína é porque a pessoa não esperava nada de mim. Não sou super, nem coitada."

Quando alguém me acha uma super heroína é porque a pessoa não esperava nada de mim. Não sou super, nem coitada."
Tabata Contri

A atriz conta que sofreu um acidente aos 20 anos de idade, bem no início da vida amorosa e profissional, e que voltar a se relacionar foi um processo de redescoberta do corpo e da vaidade. O incentivo familiar, segundo ela, foi fundamental no processo. 

"Converso com pessoas que a família não permite que saiam de casa, que tenham uma vida, que namorem. As relações fazem parte do crescimento pessoal de qualquer um. Se já existe uma limitação física, sensorial ou intelectual, não podemos colocar mais limites."

Para Jéssica Nogueira, de 28 anos, que tem atrofia muscular degenerativa, a reação de espanto de quando aparece em algum espaço com um parceiro ao lado denuncia um raciocínio superficial. "É como se a pessoa que tem deficiência não tivesse vida própria. Até mesmo quando começo um relacionamento os meninos ficam pasmos porque acreditam que são as primeiras pessoas do mundo a entrarem na nossa vida. Alguns deles nos veem com uma aparência frágil e têm medo de nos machucar." 

É por isso que Michele Simões, do documentário Amor Fati, bate na tecla da necessidade de espaços acessíveis e representação na mídia.

"A gente perpetura o pensamento de que pessoas com deficiência não saem de casa, isso porque temos uma falta de acessibilidade grande que, justamente, dificulta a saída delas. Mais do que isso, construímos nossa personalidade com base em um padrão de imitação." 

Foi pensando em representatividade que a jornalista e fotógrafa de 26 anos Maria Paula Vieira aceitou participar do clipe da música O Bebê, dos funkeiros Mc Kekel e Kevinho, que mostra o cantor em um romance com uma mulher com deficiência. 

Kevinho empurra Paula Vieira na cadeira de rodas em cena do clipe "O Bebê"

Kevinho empurra Paula Vieira na cadeira de rodas em cena do clipe "O Bebê"

Reprodução

"Já existiam papéis de pessoas personagens com deficiência na mídia, mas com atores que não têm deficiencia, o que tira a questão da representatividade. Então foi muito importante para mostrar que as pessoas com deficiência namoram, passeiam com seus namorados e têm uma vida normal", conta Maria, que tem uma doença genética rara não diagnosticada que causou uma atrofia de pés e mãos e a impede de andar.