Jovem vende brigadeiro para pagar estudos e leva vaga em Medicina

Lucas Carvalho, de 17 anos, usava o dinheiro arrecadado com a venda dos doces para comprar livros e poder se dedicar aos estudos

Sonhar alto dá trabalho, mas também pode dar resultado. E dos bons. Esse é o caso de Lucas Carvalho, de 17 anos, estudante de escola pública que conquistou uma vaga na Medicina da Universidade de Brasília (UNB) e contou sua história no Fala Brasil. Morador da favela do Sol Nascente, em Brasília, Lucas vem de uma família cujo pai é analfabeto e a mãe estudou apenas até a quarta série.

Mas o sonho de ser médico venceu qualquer tipo de dificuldade que Lucas passou – inclusive o preconceito dos colegas. “Cheguei a ouvir no cursinho que eu não ia conseguir, que era negro, que racismo no Brasil não existe, que Medicina é coisa de rico, que não daria pra entrar nesse curso na UNB. Mas não deixei nada disso me abalar. Pensei: já fiz tanta coisa difícil, por que não isso?”

O sonho de virar médico começou depois que Lucas ficou internado por 5 dias, em 2016, após quebrar o braço e precisar de uma cirurgia. Ali, no hospital, Lucas encantou-se com o ambiente e os procedimentos. Mas, principalmente, o agradou a possibilidade de ajudar outras pessoas. “Foi ali que me apaixonei pela Medicina, pela oportunidade de ajudar aqueles que são iguais a mim”, diz ele.

Brigadeiro para pagar os estudos

Então, começou a pesquisar tudo sobre o curso, qual especialidade seguiria e o tamanho dos obstáculos que teria de enfrentar. Sua mãe, que trabalha como diarista, o apoiou desde o início e passou a trabalhar dobrado para ajudar o filho com os estudos. Porém, acabou ficando doente, com diabetes, e foi aí que Lucas decidiu se esforçar ainda mais para seguir seus planos. Decidiu vender brigadeiro na porta da escola para ajudar nos gastos da casa e custear os estudos, principalmente os livros.

“Meu maior medo no início era não dar certo. Tinha medo de arrastar minha mãe, minha família, meus amigos e minha igreja para uma ilusão”, conta o estudante. Mas, Lucas deixou o medo de lado e, como se diz nos muitas mensagens motivacionais que vemos na internet hoje em dia, foi “com medo mesmo”.

O estudante pesquisou receitas e aprendeu a fazer o doce, que vendia a R$ 1,50. Também fazia trabalhos como músico. Chegava a estudar 15 horas por dia, entre o período do cursinho e as leituras em casa. Aos poucos, tornou-se conhecido pelos brigadeiros e começou a fornecer também para festas e a pegar encomendas maiores. Só parou um pouco a produção no fim do semestre passado, para focar totalmente no vestibular. O esforço deu certo: com o nome na lista dos aprovados, vibrou e contou logo para a mãe. “Quase que eu tive que ser médico ali mesmo, de tão emocionada que ela ficou”, brinca ele. O pai, divorciado da mãe, viu a notícia pela TV e foi logo procurar o filho, orgulhoso.

As aulas começam no dia 9 de março, mas Lucas pretende continuar fazendo os doces para vender também na universidade. “Meus veteranos precisam conhecer o brigadeiro, claro”, afirma.

Ansioso para o início das aulas, Lucas dá um recado para aqueles que dividem o sonho de ingressar um dia na universidade pública. “Eu quero dizer que a gente já começa a vencer quando nós mesmos acreditamos nos nossos sonhos. Muita gente não achava que eu conseguiria. Mas eu acreditava, minha mãe também. A persistência, o foco, a determinação e a motivação vão determinar onde você vai chegar”.