Lifestyle Isolamento social dificulta processo de luto; saiba como lidar

Isolamento social dificulta processo de luto; saiba como lidar

Projeto que presta assistência a pessoas enlutadas oferece cartilha com novas formas de dizer adeus sem desrespeitar a quarentena 

  • Lifestyle | Hysa Conrado, do R7

Isolamento social dificulta processo de luto

Isolamento social dificulta processo de luto

Pixabay

A pandemia do novo coronavírus transformou a forma de vivenciar o luto e, em alguns casos, tornou o processo ainda mais doloroso. Para evitar o contágio e a disseminação da covid-19, o Ministério da Saúde passou a contraindicar a realização de velórios e funerais quando há morte pela doença ou suspeita. Em outras situações, a recomendação é a de respeitar o distanciamento social durante o momento de despedida, reunindo no máximo 10 pessoas.

“Antes ficavam todos aglomerados em duas salas, agora só uma é usada”, diz Vanderlei Fernandes, que trabalha há 32 anos no velório do cemitério Quarta Parada, um dos maiores da cidade de São Paulo.

Nos velórios dos cemitérios Vila Alpina e do Araçá o cenário é o mesmo. Para velórios de quem morreu por outros motivos, o espaço foi reduzido e não pode haver aglomeração.

A importância da despedida

Mas a supressão dos rituais de despedida pode dificultar a elaboração do luto pelos familiares. Leonardo Goldberg, doutor em psicologia pela USP, explica que o rito fúnebre é importante para assimilar a ideia do adeus. "O ritual é importante porque demarca uma despedida e deixa aquele que se foi se transformar em memória”, diz.

Por outro lado, o especialista esclarece que o rito tem um caráter coletivo, enquanto o luto é um processo individual. “O luto é a elaboração da perda, por isso pode demorar um certo tempo para a pessoa atravessá-lo. O ritual, mesmo que a gente não saiba o significado exato, é algo simbólico que foi transmitido de geração em geração".

Vamos falar sobre o luto?

Na tentativa de ressignificar este momento, o projeto “Vamos falar sobre o luto?”, que há cinco anos atua para oferecer conforto e informação para pessoas enlutadas, publicou uma cartilha sobre os novos rituais de despedida neste período de isolamento social.

O material, que serve tanto para situações em que a causa da morte foi a covid-19 ou motivo diferente, lista algumas sugestões de como realizar o adeus respeitando a quarentena. A orientação para quem tem algum amigo ou familiar internado em estado grave, por exemplo, é a de entrar em contato com o hospital e combinar alguma demonstração de carinho, como a leitura de um poema ou de uma carta.

“Tentar tornar o ambiente hospitalar mais familiar, ter um objeto pessoal ou um porta-retratos para que o paciente não se sinta tão isolado ou sozinho”, recomenda Gisela Adissi, uma das idealizadoras do projeto.

Para a despedida quando o velório não é possível, uma das ideias é que, através de uma videoconferência, familiares e amigos dirijam sua atenção e preces ao falecido e aos enlutados.

Se é você quem perdeu alguém, a sugestão é escrever e falar sobre a pessoa, ligar para amigos e familiares que sejam ponto de apoio. A cartilha também chama a atenção para a importância de deixar claro a parentes e amigos como você prefere lidar com o luto, também é possível viver a dor em silêncio.

“A pessoa que perdeu alguém está desorientada, e as questões práticas do dia a dia ficam totalmente negligenciadas. Às vezes a pessoa está isolada, de luto e nem está se alimentando. Talvez nesse cenário enviar uma comida seja mais simbólico do que estar fisicamente perto ou dizer alguma coisa”, explica Gisela. A cartilha recomenda usar os serviços de entrega para enviar um prato que o enlutado goste.

Sensação de luto antecipado

O psicólogo Leonardo Goldberg explica que, num cenário de pandemia, as pessoas são atravessadas por uma ideia de finitude que se faz mais presente. “A morte do outro é o único índice de que a gente um dia vai morrer”, diz o especialista.

“Depois de um primeiro ou segundo luto a gente tem a dimensão da dor que é perder alguém, mas isso não vai servir como uma preparação para a morte. Quando a gente perde alguém, perde um pedaço nosso”, afirma.

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