Lifestyle Gêmeas de 11 anos fundam projeto de leitura contra violência na favela

Gêmeas de 11 anos fundam projeto de leitura contra violência na favela

Helena e Eduarda Ferreira criaram o projeto Pretinhas Leitoras para incentivar crianças do Morro da Providência, no Rio de Janeiro, a lerem

  • Lifestyle | Nayara Fernandes, do R7

Aos 11 anos, Helen e Eduarda Ferreira tem um canal no Youtube e eventos mensais

Aos 11 anos, Helen e Eduarda Ferreira tem um canal no Youtube e eventos mensais

reprodução

Dos 123 anos que percorrem a história do Morro da Providência, a primeira favela do Brasil, onze foram o lar das gêmeas Helena e Eduarda Ferreira. E foi dentro da casa das garotas, em 2015, que nasceu o Pretinhas Leitoras, um projeto de leitura infantil dedicado às crianças da comunidade e seu entorno. Nas rodas de leitura infantil mediadas pelas gêmeas, nasceu uma alternativa à realidade de violência no Rio de Janeiro.

“A gente morava em uma região que tinha muito tiroteio e por isso tínhamos que ficar dentro de casa”, explica Helena. “Primeiro pensamos em fazer algo diferente, um canal. Mas quando pesquisávamos crianças se divertindo, só encontrávamos imagens delas jogando jogos. Pensávamos como podiam se divertir só na frente do computador.”

O canal no Youtube só veio três anos depois, no dia 12 de outubro de 2018, Dia das Crianças. É nele que as meninas compartilham com o mundo o que mais amam fazer: ler. E, apesar de se  denominarem ‘booktubers’, é na presença do dia a dia que Duda e Helena compartilham seu amor aos livros com as crianças. Em encontros mensais, as crianças da região debatem um livro escolhido de acordo com as angústias compatíveis com suas vivências como, por exemplo, o enfrentamento do racismo nas escolas.

“Antigamente a gente não se aceitava como era por causa do nosso cabelo e nossa cor”, conta Duda, cuja biblioteca pessoal possui títulos como Solta os cabelos, Maria, Meu crespo é de rainha e Amoras. Para ela, que pretende fazer doutorado em literatura negra, os livros são uma forma de “incentivar pessoas negras a se amarem através de outras histórias.”

Já Helena, que diz que quer ser professora para “contar a história do nosso povo”, sonha com uma vida diferente para as crianças da região.

“Quero que elas tenham sonhos que possam realizar, que acessem a biblioteca e que tenham um lugar que possam se sentir seguras, sem tiroteio e violências.”

‘Minhas filhas não são excepcionais’

Elen Ferreira é pesquisadora, educadora e mãe de Duda e Helena

Elen Ferreira é pesquisadora, educadora e mãe de Duda e Helena

reprodução

Elen Ferreira é professora nos anos iniciais da educação básica, pesquisadora voltada para infâncias e mãe de Helena e Eduarda. É na vasta experiência com crianças que a educadora garante: “Minhas filhas não são excepcionais. Não são mais ou menos inteligentes, são crianças que tiveram acessos”, explica Ferreira, referindo-se à carência de infraestrutura na região.

“Na primeira favela do Brasil não tem uma biblioteca, um espaço de teatro. Nós temos crianças fadadas ao encarceramento domiciliar sem cometer delito nenhum. O país prepara infâncias negras e pobres para ficarem enclausuradas desde a mais tenra idade.”

Se duas meninas de onze anos que sonham em fazer doutorado ou mudar a realidade da região em que vivem soam como ‘crianças prodígio’ para a maioria, para Elen as ambições das filhas são absolutamente naturais.

“São sonhos que reivindicam qualidade de vida e segurança, muito mais palpáveis do que ir pra Disney.  Helena quer ir para o Canadá, mas digo a ela que o Canadá é logo ali, pode acontecer a qualquer momento. A luta pela segurança das crianças do Brasil, no entanto, precisa de uma disposição de vida.”

Últimas