Um quinto dos casais se separa até o primeiro ano do bebê

De acordo com estudo, estresse e divergência de expectativas acarretam em crise. Especialistas explicam como driblar obstáculos do período

Primeiros meses do bebê são de difícil adaptação

Primeiros meses do bebê são de difícil adaptação

Pexels

“Ficamos juntos por sete anos. Tudo mudou quando eu engravidei. A sensação é de que, enquanto eu me tornava mãe, ele estava em outro processo”. O relato da atriz Luana Teixeira, 34 anos, sobre os motivos que desencadearam o fim de seu primeiro casamento não são incomuns.

De acordo com um estudo realizado pelo ChannelMum.com, uma comunidade de pais no Reino Unido, um terço dos casais sofre problemas de adaptação nos primeiros meses após o nascimento do bebê, enquanto um quinto se separa durante o primeiro ano.

Mas o que faz com que um momento tão esperado quanto a chegada de um filho termine na separação de um casal? Segundo Luana, a falta de companheirismo durante a mudança de rotina intensificou os desajustes no relacionamento.

Ela conta que enquanto estava conectada ao que chama de “processo de ninho” — a rotina de amamentar, acordar de madrugada e priorizar planos futuros como a organização financeira da família — o ex-parceiro queria sair para eventos e se encontrar com os amigos. “Me sentia vivendo uma maternidade solo. Tudo o que eu admirava, passei a não admirar mais. Não queria mais aquela ausência para mim.”

De acordo com os especialistas Renato e Cristiane Cardoso, autores dos best-sellers Casamento Blindado e Namoro Blindado, o primeiro ano do bebê é o que requer mais atenção e tempo do casal, principalmente da mãe e, com isso, vêm o estresse e a mudança da rotina.

“É de extrema importância que o marido tenha a paciência para esperar que sua esposa se adeque à nova rotina de mãe e consiga se equilibrar entre o bebê e o casamento. Já a mãe precisa trabalhar nisso e não esperar que o marido se vire com as consequências dessa nova fase de suas vidas.”

Ainda segundo os especialistas, um dos fatores que podem agravar a crise no relacionamento é se o casal tem filhos antes mesmo de superar a fase de adaptação. “Com a chegada da criança, essa fase é interrompida, pois, agora, ambos terão que se adaptar primeiro com o bebê, esquecendo, assim, da intimidade que ainda estavam construindo antes da chegada da criança.”

Após superarem a crise, Larissa e Carlos Sena explicam que idealizavam o relacionamento

Após superarem a crise, Larissa e Carlos Sena explicam que idealizavam o relacionamento

Arquivo pessoal

Foi o que aconteceu com Larissa Dias e Carlos Sena. A notícia da gravidez do filho Noah, em 2019, aconteceu duas semanas após o casamento, enquanto moravam na Austrália. “Foi uma confusão”, conta Larissa. “Eu não queria mais morar no exterior pois, se teria um filho, queria tê-lo perto da minha família. Já o Carlos estava mais realizado na Austrália.”

Com a consciência de que a criação do filho Noah seria mais difícil sem uma rede de apoio, o casal retornou ao Brasil. Os obstáculos, no entanto, ainda apareceram em razão de uma crise financeira: embora realizada com a maternidade, ela se ressentia de ter de ficar em casa, enquanto ele não se sentia valorizado.

“Eu acho que a gente entrou muito em guerra porque ele não conseguia entender que eu estava sobrecarregada, pois entendia que eu estava em casa o dia inteiro. Só que ficar em casa o dia todo com uma criança é muito difícil”, desabafa.

Ambos acabaram encontrando a solução na terapia, cada um com o seu processo, e fizeram da crise um obstáculo a ser superado.

Segundo conta Larissa, foi o marido Carlos quem encontrou na internet a pesquisa que falava sobre as dificuldades do primeiro ano do bebê. “Entendemos que não estávamos sozinhos e que as pessoas romantizam muito o casamento e a maternidade.

Muitas pessoas desistem não por falta de amor, mas por acharem que seria diferente do que realmente é
Larissa Dias

Sobrevivendo ao primeiro ano

Paciência, tolerância e sensibilidade são algumas das qualidades que, segundo Renato e Cristiane, um casal deve desenvolver nesse período. “A mulher fica mais sensível nesse período, não só por causa dos seus hormônios ou estresse, mas por causa da dependência que o bebê tem dela.”

“A mãe precisa estar mais atenta ao seu bebê e isso exige sensibilidade", alertam os especialistas. "Já o pai desenvolve o senso de maior responsabilidade, agora que sua família cresceu e mais um serzinho precisa dele, tanto em relação a carinho e atenção, quanto a questão econômica.”

No caso de Luana, ela conta que não só ela como a filha, ainda bebê, sentiram a separação. “Quando eu me separei, teve um lugar de muito alívio, mas minha filha era muito pequena e sentia muita falta do pai. Ela chorava muito durante o dia. Muitos processos meus eu ainda não estava entendendo e, de certa forma, nossos filhos manifestam pela gente. Foram muitos anos até que eu me permitisse me apaixonar novamente”, explica ela.

Luana se casou novamente e hoje está grávida de gêmeos. Segundo conta, ela e o companheiro atual já possuem uma postura mais alinhada em relação à chegada dos bebês. “Ele é uma pessoa muito família, cujo sonho sempre foi ser pai. Está curtindo cada segundo comigo e a gente vem mergulhando nesse processo. Estou com meu coração tranquilo.”