Disciplina Positiva: técnica pode revolucionar a criação dos filhos

Método criado por Jane Nelsen prega educação com "firmeza e gentileza". Educadora parental explica como funciona na prática

Disciplina Positiva prega educação com "firmeza e gentileza"; saiba como funciona

Disciplina Positiva prega educação com "firmeza e gentileza"; saiba como funciona

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Há quem defenda que o castigo, o rigor e até algumas palmadas são boas práticas para se criar os filhos. Outros acabam cedendo e falando "sim" demais para eles. Mas há um caminho intermediário que promete revolucionar tudo o que grande parte das pessoas sabe sobre como educar uma criança: a Disciplina Positiva.

"É o equilíbrio entre o autoritarismo e a liberdade. Ser firme e gentil ao mesmo tempo. Como exigir respeito de uma criança sem respeitá-la?". As palavras da educadora parental Telma Abrahão resumem bem o método criado por Jane Nelsen, baseado em estudos dos psiquiatras austríacos Rudolf Dreikurs e Alfred Adler. Segundo ela, o objetivo da Disciplina Positiva é "educar crianças para que se tornem adultos capazes, responsáveis, resilientes, com boa autoestima e que saibam resolver os próprios problemas".

Telma Abrahão é especializada em Disciplina Positiva

Telma Abrahão é especializada em Disciplina Positiva

Divulgação

Telma, que é especialista em Inteligência Emocional e membro certificada da Associação de Disciplina Positiva Americana, afirma que, hoje, há uma geração inteira de adultos com problemas relacionados à autoconfiança e à maneira de como lidam com frustrações "porque na infância ninguém olhou para essa criança como ela precisava". "Ela sempre recebeu ordens sem liberdade, com autoritarismo", explica.

Permissividade?

Ao contrário do que muitos acreditam, a Disciplina Positiva nada tem a ver com dizer "sim" para tudo. "Você coloca regras e limites, sim, mas sempre de forma respeitosa, estabelecendo uma conexão com o filho e levando em consideração o que ele está sentindo", explica a educadora.

A ideia é fazer com que a criança se sinta parte da família, útil e capaz, sempre com espaço para ser ouvida. "É diferente da educação tradicional em que você simplesmente dá uma ordem e espera que ela cumpra", diz.

Apesar de ser aparentemente simples, o método esbarra na experiência que os próprios pais tiveram na infância — o que acaba sendo um dos maiores obstáculos para colocá-lo em prática.

"Muitos pais vieram de um modelo autoritário e acabam repetindo aquele modelo. Pensam: 'Eu apanhei e não morri, continuo vivo'. Mas a que preço? Muitos problemas e barreiras emocionais de pessoas adultas vêm da infância, coisas que viveram lá atrás e que estão reproduzindo", afirma Telma. 

Mas como o método funciona na prática?

Veja abaixo algumas situações comuns na vida da maioria dos pais e como agir diante delas, segundo a Disciplina Positiva:

Birra em locais públicos
Telma Abrahão: "Primeiro é preciso entender o que está por trás das birras. Pode ser que a criança esteja com alguma necessidade física, como fome, sono etc, ou emocional não atendida. Uma criança dos 0 aos 4 anos não tem condições neurológicas para lidar com o que ela sente. O melhor a fazer é manter o autocontrole, ficar por perto, tirar o foco da criança ou esperar ela se acalmar. Depois disso, conversar com o filho e falar que aquilo não foi certo. O maior desafio é a mãe conseguir se manter calma, e o melhor é nunca gritar. Pode ficar em silencio ou dizer algo como: "Mamãe te ama, quando você estiver calmo a gente conversa". Sair andando e deixar a criança sozinha é pior. Ela não sabe se comunicar perfeitamente, a única coisa que sabe fazer é isso, e precisa que a mãe a ajude a lidar com aquilo, com as próprias emoções e frustrações".

Você disse "não", mas seu filho não aceitou
Telma Abrahão:
 "É importante você deixar claro os motivos daquele não. Muitas crianças entendem as negativas como um 'a mamãe não gosta de mim'. Então você pode dizer: 'Filho, mamãe te ama, mas a resposta é não'. Em seguida você deixa ele lidar com a frustração. Ele tem que entender que pode sobreviver às frustrações. Mas ela não precisa ouvir não para tudo. Se o seu não é não, mantenha-o até o fim. Se o não for virar um sim, já fale sim de cara".

Seu filho se recusa a comer
Telma Abrahão: "O ser humano nasce com o instinto de se alimentar — se não come, morre. Se a criança não quiser comer, diga: 'Filho, a próxima refeição é daqui a três horas. Você escolhe. Se não quiser comer agora, vai comer depois'. A melhor maneira de ensiná-la é fazê-la lidar com as consequências das próprias escolhas. É importante também você não forçá-la a comer toda a comida do prato, se ela não aguentar mais. Ela tem de aprender a se autorregular. As mães não devem transformar a comida em um transtorno, senão, aquele momento da alimentação vira um desprazer, e a criança perde o interesse na comida. Muita gente tem transtorno alimentar na fase adulta porque a mãe forçava a comer tudo na infância e não ensinou a criança a se autorregular".

Ciúme entre irmãos
Telma Abrahão:
"Muitas vezes os pais reforçam a competição entre irmãos sem perceber. Ficam comparando um com o outro, e a comparação é um desastre. A mãe acha que está motivando o filho, quando, na verdade, está desencorajando e acabando com a autoestima dele. A melhor coisa é tirar um tempo de qualidade com cada criança, de 15 a 20 minutos, separadamente. 'Filho, vou ficar com o seu irmão, depois é sua vez'. Tempo de qualidade é sem celular, sem preocupações — é um tempo para se conectar com a criança. Consequentemente ela vai parando de competir com o irmão".

Limites com eletrônicos
Telma Abrahão
: "Crianças menores de dois anos não devem ter contato com eletrônicos, porque eles prejudicam o desenvolvimento. A partir dos dois até os nove anos o tempo ideal é entre uma e duas horas. Hoje em dia, a gente vê muitos pais chegarem em casa cansados do trabalho e sem disposição para brincar com os filhos, aí colocam a tecnologia como 'babá'. Em relação aos limites, tudo deve ser combinado, as regras devem ser claras. Quando der o limite, você desliga o tablet ou celular. Se a criança não cumpriu a regra, você desliga e deixa ela lidar com a frustração. Mas isso também é uma responsabilidade dos pais: o quanto eles estão dispostos a se dedicar aos filhos? É muito cômodo colocar o filho no celular quando não está disposto a brincar com ele, por exemplo".

Filhos que desafiam os pais
Telma Abrahão:
"Quando uma criança não se sente ouvida e respeitada, quando os pais não levam em consideração os sentimentos dela, ela não tem outra alternativa a não ser reagir, se rebelar, desafiar. Ela quer ser ouvida, está pedindo 'pelo amor de Deus'. Muitas vezes os pais autoritários não querem saber isso, e é por isso que existem as disputas de poder. O segredo é ouvir mais o que os filhos têm a dizer, prestar mais atenção, porque muitos pais não escutam os filhos na infância. Aí acham ruim quando, na adolescência, eles não contam as coisas".

Telma é membro certificada da Associação de Disciplina Positiva Americana

Telma é membro certificada da Associação de Disciplina Positiva Americana

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