Filhos Como falar com crianças sobre a morte e o luto? Pediatra explica

Como falar com crianças sobre a morte e o luto? Pediatra explica

Em tempos de pandemia, especialista conta que, apesar de ser desafiador, a melhor abordagem é a feita com naturalidade 

O essencial é abordar a questão com naturalidade e sem falsear situações ou emoções

O essencial é abordar a questão com naturalidade e sem falsear situações ou emoções

Reprodução/Pexels

Parte natural do ciclo da vida, a morte pode ser um verdadeiro tabu, principalmente no que diz respeito a crianças, já que se tem a impressão errônea de que elas não sabem nada a respeito. 

A médica Francielle Tosatti, pediatra e especialista em emergências pelo Instituto Israelita Albert Einstein, lembra que a maioria das crianças já teve, de certa forma, algum contato com a morte no dia-a-dia, como ao ver um inseto morto, uma flor murcha ou o tema sendo abordado em filmes, como Rei Leão, Bambi, Frozen e outros.

Por mais desconfortável que possa ser, é essencial entender e transmitir aos pequenos a naturalidade desse momento, que é parte do ciclo da vida. "A conversa deveria tomar lugar de forma natural, gradual e ilustrativa e não apenas mediante o evento em si", diz a médica.

A pandemia deixou o tema mais próximo e palpável por conta das informações na mídia ou mesmo por conta de familiares e conhecidos que tenham partido por conta da doença.

"Por isso, tão importante quanto falar sobre morte é entender que a criança sente o luto, de acordo com sua idade e maturidade, e cada pequeno irá reagir de uma forma à ausência, ao clima da casa e às emoções dos familiares", conta a pediatra. 

O luto em cada faixa etária

0 a 2 anos
Até os dois anos, a criança percebe a morte como uma ausência, sendo fundamental manter a proximidade com os familiares e, no caso da perda de um cuidador próximo, é necessário que outra pessoa, como avós, assumam as responsabilidades de cuidar dos pequenos, mantendo a constância da rotina.

3 a 6 anos
A criança começa a assimilar a morte, mas ainda de uma forma muito fantasiosa. "É importante ter muito cuidado com o uso de metáforas como ‘dormiu para sempre’ ou ‘fez uma longa viagem’, pois podem gerar fobias na hora de dormir ou viajar, além de não contribuir com a assimilação da finitude do evento", diz a pediatra.

A visão egocêntrica, comum nessa faixa etária, pode levar a criança a se sentir culpada, adotar comportamentos hostis ou ter regressões de comportamento. Reafirmar constantemente que a criança não teve culpa, ofercer acolhimento e ajudá-la a expressar seus sentimentos fazem parte do suporte de que ela precisa e que não só vai curar mas ajudar a entender o luto. De acordo com a pediatra, expressões artística, como desenhos, tabelas de sentimentos e álbuns de lembranças, são facilitadores desse processo.

7 a 9 anos ou mais
Aqui a criança começa a entender a morte como algo definitivo e irreversível e pode requisitar meios concretos para entender o processo, como participação no funeral. Essa é uma possibilidade que fica sujeita à decisão da família, de acordo com seus valores e sua religiosidade. Francielle afirma que é importante que seja uma opção para a criança e não uma imposição. "Caso a decisão seja levar a criança, e ela deseje ir, explique como vai ser antes e esteja pronto para trazê-la de volta para casa se ela não quiser ficar."

E como abordar a covid-19?

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Se algum membro da família ou amigo próximo adoecer de covid-19, é importante tentar incluir a criança no processo desde o começo, para que ela assimile uma cronologia dos acontecimentos. Pais e cuidadores devem estar preparados para responder as perguntas (que podem ser repetitivas) de forma clara e sem detalhes desnecessários.

"Abra espaço para que a criança expresse seus sentimentos (o lúdico é um excelente facilitador) e ajude-a a entender o que está acontecendo", ensina Dra. Francielle.

Além disso, a médica sugere que se mantenha a criança informada da evolução da doença, em casos de internações. "Havendo a possibilidade de uma televisita, pergunte se ela deseja participar e antecipe o que ela irá ver: estado de saúde, emagrecimento, dispositivos que possam estar conectados ao corpo, etc. Assegure-a de que se ela não quiser ver está tudo bem e que você dará notícias."

Se houver falecimento de um ente querido, a criança deverá ser comunicada assim que possível por um cuidador com quem ela tenha vínculo afetivo e em quem confie. 

Também é importante que o adulto não esconda ou falseie suas próprias emoções. Está tudo bem dizer "estou chorando porque tenho saudades", pois essa vivência ajudará a criança a entender que entrar em contato com sentimentos dolorosos é possível e que, à medida que o amor dos nossos queridos nos conforta, as emoções se transformam em lembranças saudosas.

"Uma das homenagens mais lindas, na minha opinião, e que costuma ser bem assimilada por crianças, é plantar uma rosa ou outra flor para o ente querido, explicando que ele nunca será esquecido e estará sempre no seu coração", finaliza. 

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