Análise: Neste 12 de outubro, presente ou presença?

O prazer do seu filho em rasgar a embalagem de brinquedos dura minutos, mas não conquista a felicidade. Que tal fazer diferente neste Dia das Crianças?

Neste 12 de outubro, presente ou presença?

Neste 12 de outubro, presente ou presença?

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Fico imaginando como seria se as vitrines pudessem exibir lançamentos diferentes para o Dia das Crianças: “Cara a cara com a mamãe”,  “Quebra-cabeças com o papai”, “Jogo da memória em família”.

Imagine só se nas prateleiras estivessem os heróis do dia a dia, a liga da justiça contra o celular e outros vilões do tempo. Quem sabe se existisse um “vale experiência” ou um cartão de bônus para rolar no tapete da sala, cards que pudessem ser trocados por cócegas, bonecas repetindo “hora da mamãe de brincadeirinha se divertir com a mamãe de verdade.”

Qual seria o efeito disso? Como os pequenos consumidores reagiriam diante das grandes ofertas de atenção plena e afeto? Eu acredito que as lojas teriam filas de crianças para garantir o tão desejado presente, imagino que muitos cofrinhos seriam abertos para que a valiosa brincadeira pudesse ter vez. E, acredite! Eles pagariam tudo que tivessem se alguma dessas opções estivesse à venda, mas o fato é que brinquedos têm preço. Já brincadeiras têm valor.

O Dia das Crianças se aproxima para mais um compromisso na agenda superlotada dos pais. Muitos se perguntam: “O que vou comprar de presente?” ou “O que posso dar parar o meu filho?”. Presentear é um gesto de amor? Sim. Mas receber presentes de pais ausentes não passa de compensação ilusória quando a caixa embrulhada no papel colorido chega apenas para ocupar um espaço emocional vazio.

Aquela roupa de marca? O tênis da moda? O brinquedo mais tecnológico? O jogo do momento? Que presente, afinal, supriria a presença? Não são raros os casos de pais que, para se livrarem da culpa de um cotidiano frenético, de uma rotina desequilibrada e uma relação distante dos filhos, tentam compensar a conversa e o cafuné com o que pode ser parcelado em 10 vezes no cartão.

O prazer de rasgar a embalagem e a alegria de mais uma aquisição material são sensações que duram minutos, mas não conquistam a felicidade. Há crianças que esperam ansiosas pela data em que poderão fazer o pedido mais importante: “ter pais”.

Eles costumam gritar em silêncio por atenção. São crianças que geralmente contrariam todas as regras, frustram a expectativa dos adultos, agem com agressividade, apresentam problemas escolares ou se isolam num universo virtual e solitário. Tudo só para serem notadas.

São filhos do quarto. Zumbis dos videogames. Enteados do YouTube. Crianças e adolescentes que pedem socorro quando apenas balançam a cabeça, já sem ânimo para falar. Afinal, as conversas parecem um roteiro pronto.

Quem sabe se perguntam o tempo todo: “Quando vou ganhar a chance de ser filho?”.  Os calendários voam e, com as folhinhas, se vai também a chance de ser presente.  Não é simplesmente dar. É sobre se dar.

Os melhores amigos se fazem de presença constante. Física e emocional. Os vínculos só acontecem com tempo de qualidade. As memórias só são construídas com histórias para relembrar. Então, que tal oferecer para seu filho um presente diferente neste 12 de Outubro?

Uma manhã de pedaladas num passeio de bicicleta, um almoço em família sem banquete de tecnologia, um piquenique ao entardecer, uma noite de filme com pipoca ou até um brinquedo que vocês mesmos farão juntos?

Escolha o que tem valor e não o que tem preço. Em vez de PRESENTE, ofereça PRESENÇA. Quem sabe assim, os outros dias do ano também serão dias das crianças?

*Edineia Dutra é Coordenadora da Escola de Mães (escolademaes.com)